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zuenir ventura

Nascimento:
1º de junho 1931 em Além Paraíba, Minas Gerais.

Formação educacional:
Letras Neolatinas, Faculdade de Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil.

Livros publicados:
1968: o ano que não terminou. São Paulo, Companhia das Letras, 1988.
Cidade partida. São Paulo, Companhia das Letras, 1994.
Inveja: O mal secreto. São Paulo, Companhia das Letras, 2001.
Cultura em transe (em colaboração com Heloisa Buarque de Hollanda e Elio Gaspari). Rio de Janeiro, Aeroplano, 2000.
Chico Mendes: crime e castigo. São Paulo, Companhia das Letras, 2003.
As vozes do golpe. São Paulo, Companhia das Letras, 2004.
As melhores crônicas de Zuenir Ventura. São Paulo, Global, 2004.

Atividade jornalística:
Ingressei como arquivista na Tribuna da Imprensa, em 1956. Eu não queria ser jornalista, nem pensava nisso. Queria ficar lendo meus livros. Mas o Hélcio Martins, que me levou para lá, dizia que eu deveria treinar o texto jornalístico. Um dia, o Carlos Lacerda, que era o diretor, pediu ao arquivo um texto sobre o Camus, que era a minha paixão. O texto fez algum sucesso e começou a correr a lenda que o contínuo do arquivo era um gênio. Na verdade eu não era contínuo nem muito menos gênio. De repente, eu estava na redação ganhando quatro vezes mais. Não tinha como recusar. Paralelamente, trabalhava em A História em Notícia, do Amaral Neto. Em 1960, ganhei uma bolsa de estudos do governo francês para passar um ano estudando no Centro de Estudos de Formação de Jornalistas. Depois, fiz longa carreira por órgãos de imprensa como Correio da Manhã, Fatos e Fotos, Diário Carioca, O Cruzeiro, Veja, Visão, Isto É, Jornal do Brasil, onde dirigi o B Especial e criei o Idéias. Sempre na edição e sempre fazendo jornalismo cultural. É o que eu gosto. Se pudesse, parava de escrever e ia ler. Mesmo quando era chefe de sucursais, tinha gosto especial pela área cultural. Fui também professor da Escola de Comunicação da ufrj. Brinco que minha carreira é uma pirâmide invertida. Depois do primeiro livro, passei de chefe a repórter e cronista. Hoje sou colunista de O Globo, Época e do site no.com.

1. Como responderia à pergunta de João do Rio: a atividade jornalística é prejudicial ou não a um aspirante a escritor?
Eu diria que não. O Hélcio dizia para mim, quando eu ainda estava no arquivo, você tem que escrever para jornal que vai te fazer muito bem. Você vai se disciplinar. Comecei num momento em que havia um rigor muito grande na linguagem jornalística. Era uma reação a toda a subjetividade dos anos 1950, quando veio o lead, depois da guerra. Aprendi a trabalhar com as categorias fundamentais e indispensáveis ao texto jornalístico: o sujeito e o predicado, considerando que adjetivos e advérbios são complementares e dispensáveis. O que é fundamental é o sujeito e a ação. O jornalismo da época era assim: para usar um adjetivo você tinha quase que fazer um memorando implorando a Carlos Lacerda. Era algo banido. Isso me deu uma disciplina muito grande, uma economia de linguagem. Você trabalha com pouco, não desperdiça, expurga sua linguagem de qualquer gordura. O risco é transformar economia em penúria. Quando chega a um ascetismo total, fica uma linguagem pobre.

O jornalismo faz muito bem para quem trabalha com a palavra, exige um trabalho de seleção, de rigor na escolha do material. Você aprende a economizar a palavra. Da mesma forma que na vida, uma experiência de pobreza faz com que você valorize a riqueza que venha a ter, acontece também no jornalismo.

2. Haveria uma influência da literatura nesse processo de depuração, mesmo antes da implantação do lide? Qual o papel dos escritores realistas e modernistas nessa depuração?
Nunca tinha pensado nisso, mas vejo que o processo de limpeza da linguagem vem da literatura, sim. Escrever é cortar palavra. Sobretudo no Graciliano. Veja bem, a Semana de 22 também fez um trabalho de inclusão do insignificante, do cotidiano. O jornalismo, quando eu comecei, só falava dos grandes temas, do macro. Os cronistas, o Rubem, os mineiros, os capixabas, introduziram o insignificante, a amendoeira, o homem de frente para o mar. Toda uma percepção. A Semana trouxe também o humor. A matéria-prima tanto do jornalismo quanto da literatura é a mesma: a palavra. O cuidado é para essa economia, esse despojamento, não se transformar em penúria. Porque aí é um desastre.

3. O jornalista é um escritor? O jornalismo é uma vocação ou um ofício?
É um ofício. Eu nunca tive vocação. Hoje, já velho, não consigo me imaginar fazendo outra coisa. Minha vocação era mais geral, ligada às ciências humanas.

3. O jornalismo é um gênero literário?
Acho que o jornalismo tem autonomia estética. É um perigo quando a literatura entra no jornalismo. Para o jornalismo, João do Rio foi mais importante que Machado de Assis. Quem é que fez entrevista? Foi João do Rio. Bilac esteve em Paris e nunca passou por sua cabeça entrevistar o Zola. Quem foi fazer entrevista de rua, quem subiu os morros, quem trouxe a matéria foi João do Rio, com suas matérias sobre religiões, drogas. Acho que o que é específico do jornalismo é o contato com a realidade, o corpo-a-corpo com o real. A partir dos anos 1980/1990, a gente tinha muito nítida a diferença entre jornalismo e literatura. Nas minhas aulas, dizia jornalismo é realidade, fala de um fato verificável. Literatura trabalha com a imaginação.

A partir dessa época, há uma mistura de planos. O que é realidade? A discussão vem de outras áreas e acabou se refletindo de uma forma curiosa no jornalismo. Exemplo, meu livro Inveja: o mal secreto brinca com essas fronteiras, com a arrogância do jornalista que diz: o que eu escrevo é verdade. O jornalismo não é o território da verdade, há sempre subjetividade, recriação. Essas fronteiras ficaram muito nítidas nos anos 1960, como reação ao jornalismo mentira, de Davi Nasser & Cia. O lide era uma tentativa de aprisionar naquela fórmula a realidade. O mito da objetividade foi muito bom, num primeiro momento, porque livrou o jornalismo do nariz de cera e da mentira (o que era pior, o jornalista não dizia que estava mentindo, inventava dizendo que estava falando a verdade). Mas, num segundo momento, o mito foi ruim porque fez o jornalista acreditar que poderia ter esse nível de objetividade. Lembro-me de uma frase de Godard dizendo que a câmera pode ser de esquerda ou de direita. Se uma máquina pode ser a favor ou contra, só mudando o ângulo, imagine o que não se pode fazer com a linguagem, que está encharcada da nossa subjetividade.

A reação foi a mistura de planos, em vários níveis. O autor brinca com o leitor. O que ele pensa que é realidade, não é, é justamente o inverossímil. Minha experiência com O mal secreto foi exatamente essa. Não digo quais personagens e situações são reais ou não. No plano da linguagem, a dimensão estética é tão ou mais importante que a dimensão semântica. Mesmo no jornalismo. É diferente uma matéria que te dá emoção de outra que só te dá informação. Informação pura e simples você tem na internet. Há um fenômeno muito interessante hoje que é esse hibridismo.

4. É o caso também de Santa Evita.
Pois é, só depois fui me dar conta disso.

5. Quando você começou a escrever o livro foi pensando em fazer algo assim?
Não, foi rolando. Eu não queria fazer ficção, pesquisei muito. Mas, quanto mais pesquisava, mais via que tudo já tinha sido escrito. E eu sou jornalista, não sou sociólogo, psicanalista, antropólogo. Eu sei contar histórias. Até que me toquei que, mais do que o que eu encontrava, a ida a certos lugares, o fato de conhecer certas pessoas, era o mais interessante. No jornalismo, a gente não conta o processo, só conta o resultado. Às vezes, você chega na redação e conta o que aconteceu e é muito mais legal do que a matéria que sai publicada. Então resolvi falar do processo.Por que não fazer um livro sobre o making of, não à parte, como no cinema? Mas dentro, um livro sobre alguém que estava escrevendo um livro. A partir de determinado momento, comecei a ver que teria problemas de natureza ética por ser um tema explosivo de como usar determinados personagens. Comecei a disfarçar esses personagens, misturar, tirar nomes. A partir daí, tive liberdade para criar. Foi fundamental ter tido a base das pesquisas.A literatura começa a partir de uma realidade perdida ou de uma que não existiu. Essa realidade está sempre dentro da ficção.Essa base da realidade faz bem para a ficção. Zé Rubem Fonseca é um exemplo disso. Passou noites com mendigo para escrever “A arte de andar nas ruas do Rio”. Até para transcender, para inventar, é preciso conhecer.

6. O jornalista é um escritor?
Hoje você precisa do mercado. Mais do que nunca. O mercado não é literário, é jornalístico, com pouquíssimas exceções. É muito difícil sobreviver da atividade literária. Hoje, Machado não teria condições de sobrevivência no funcionalismo público. Mesmo recentemente, você tinha bicos. Até os anos 1960, havia uma dependência do serviço público. Otto Lara Resende foi procurador. Mas veja o caso do Cony. É o jornalismo que o sustenta.

7. Você pretende voltar à ficção?
Estou escrevendo um livro. Como pano de fundo, a Friburgo dos anos 1940, a Guerra e o Estado Novo. É um livro com apuração, entrevistas. Na verdade, queria fazer não-ficção, mas é difícil. Teria que me indispor com a família, com a cidade, fazer transgressões éticas, já que algumas pessoas estão vivas, e teria que mexer na imagem que passam pela família. Optando pela ficção, tenho uma liberdade muito maior.

8. Qual é a história?
Duas irmãs que namoravam dois irmãos. Uma se casou, foi infeliz, e não deixou a outra se casar com o cunhado. Eles se separam, passam cinqüenta anos longe. Quando o preterido fica viúvo vai procurá-la, ela já estava com setenta anos, e eles se casam. Passam dez anos apaixonados, como dois adolescentes, até que ela morre. O problema é que ela é minha parente. Em vez de dar o nome verdadeiro aos personagens, acho que é mais fácil embaralhar. Pegar aquele personagem que estava preso pelos dados biográficos e criar mais história para ele.

9. Afinal, o jornalista é escritor ou não?
Diria que sim. Achar que o escritor é só o romancista deprecia o jornalismo. O jornalismo tem uma autonomia estética e você tem hoje obras jornalísticas que são boas por si mesmas. E não têm literatura. É um gênero literário. O que une as duas atividades é a palavra. Claro que tem graus e níveis, de um repórter quase analfabeto até um Machado de Assis. Mas fazem parte de um mesmo ofício, de dar forma à realidade ou à fantasia. Acho que hoje acabaram os guetos, as fronteiras: isso é jornalismo, isso é crônica, é ensaio, é ficção. O jornalismo é uma forma de literatura.

10. Como concilia as atividades?
Agora, com as colunas, tenho mais liberdade. Vou para Teresópolis na quinta-feira, passo quinta, sexta e sábado escrevendo meus livros, isolado em meu apartamento. Preciso sair do Rio para fazer isso.

Escrevo as colunas na segunda, terça e quarta-feira aqui no Rio mesmo. Não tenho organização, do tipo agora vou sentar e escrever, acredito na inspiração. Tem dia que vem mais do que outros. Apesar de ter sido treinado em redação, sou meio rebelde. Posso virar uma noite trabalhando. E ter dia em que não consigo escrever uma linha. Mas isso é com a ficção. Com as colunas é diferente. Preciso já dormir sabendo o que vou escrever. Aí sai rápido porque tenho que entregar. Mas nem sempre foi assim. Para escrever 1968, tirei uma licença. Voltei a trabalhar no jornal só no finalzinho. Fechava o jornal às onze da noite e escrevia até às três da manhã na redação mesmo.

11. Conviveu com outros escritores?
Trabalhei com Ledo Ivo, na Tribuna da Imprensa, mas ele me esnobava porque eu vinha do arquivo e ele já estava de olho na Academia. Também com o José Candido de Carvalho em O Cruzeiro.

12. Entre a ficção e a realidade, hoje é o jornalismo que mais vende. Pode ser que ainda não tenha surgido o grande escritor jornalista da nova geração. Mas o que vai vender mesmo, ser absorvido pelo mercado, é o jornalismo, seu, do Ruy Castro e do Fernando Morais, é a grande reportagem que vai para a lista de mais vendidos. E não a ficção. Por quê?
Quando fiz 68, as pessoas me elogiavam dizendo: parece um romance. Eu preferia que me dissessem: parece uma grande reportagem. Hoje posso dizer que era um romance sem ficção. Usei muitos recursos da literatura, mas não foi nenhuma apropriação indébita. Nada naquele livro foi inventado, tudo pode ser checado. Uma das hipóteses para isso é que, após a abertura, havia uma enorme demanda de realidade, a literatura serviu de inventário da ditadura. Gabeira foi um dos primeiros a contar o que foi escamoteado durante trinta anos. Mas a geração que escrevia durante a ditadura fazia uma literatura alegórica. Cansou. Talvez o fastio do leitor pela ficção hoje seja resíduo disso. Assim como o interesse pelas grandes reportagens. Para mim, é um mistério, porque nunca teve tanta realidade exposta como agora. Hoje, a censura é do mercado. Você publica o que quiser, você sabe tudo. Apesar dessa overdose de realidade, por que é que a realidade em livro ainda vende? Talvez isso tenha a ver com uma realidade fragmentada. Num livro, ela faz algum sentido. Talvez o leitor esteja em busca de sentido. Afinal, o jornalismo tem informação demais. O que falta é explicação.


 

 

Pena de Aluguel :: Cristiane Costa
Página desenvolvida por Elizabeth Sucupira :: 2005