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Voltemos ao ano de 1904.
Foi quando o jornalista e escritor João do Rio publicou em A
Gazeta de
Notícias uma enquete com os principais intelectuais do período. A
série partiu de 11 entrevistas e 26 cartas de autores, que responderam a
cinco perguntas, originalmente enviadas a mais de cem pessoas. Três anos
depois, essas respostas foram reunidas no livro O momento literário -
hoje considerado um dos principais documentos sobre a vida intelectual
brasileira na virada do século 20.
Entre essas cinco questões, está uma que o próprio autor
considerava capital: O jornalismo, especialmente no Brasil, é um fator
bom ou mau para a arte literária?
Um século depois, a proposta desta pesquisa é dar conta das
possíveis respostas, em vários momentos literários brasileiros, à
questão que angustiava o repórter João do Rio provavelmente tanto quanto
um autor contemporâneo como Bernardo Carvalho: trabalhar na imprensa
atrapalha ou ajuda uma pessoa que quer ser escritor?
E ainda acrescentar outra pergunta: para a literatura, o que
significou essa aproximação entre o escritor e o jornalista? Será que é
apenas um salário no fim do mês a contribuição que a imprensa vem dando
à ficção e à poesia brasileiras desde meados do século 19, quando os
primeiros homens e mulheres de letras deste país começaram a se
infiltrar nas redações? É possível que, trabalhando com a mesma
matéria-prima, a palavra, em algum momento o muro que separa um discurso
do outro não tenha se tornado apenas uma linha tênue? Ou que alguns
aspectos da narrativa jornalística não tenham acabado por se incorporar
ou mesmo renovar o texto
literário (e vice-versa)?
Para traçar uma história comparada da literatura e da imprensa
brasileiras, a pesquisa divide-se em cinco períodos, concentrando-se em
seus principais representantes. Em resumo:
- O primeiro dá conta dos primórdios do
livro e do jornal, especialmente o período que vai de 1808 a 1830,
quando o Brasil publica seus primeiros jornais e livros.
- Uma segunda etapa, que vai de 1840 a
1910, narra a transição entre o reinado do publicista e a república dos
homens de letras. Seus principais personagens são José de Alencar,
Machado de Assis, Olavo Bilac, Coelho Neto, Lima Barreto e João do Rio.
- O terceiro período discute a era da
modernização, entre 1920 e 1950, com destaque para nomes como Graciliano
Ramos, Monteiro Lobato, Oswald de Andrade, Nelson Rodrigues, Carlos
Drummond de Andrade, Jorge Amado e Érico Verissimo.
- O quarto sustenta que, de 1960 a 1980,
houve um boom da ficção feita por jornalistas no Brasil. Aí a lista é
enorme, e inclui quase todos os ficcionistas e boa parte dos poetas do
período: Carlos Heitor Cony, Ferreira Gullar, Paulo Francis, Carlinhos
Oliveira, João Antônio, Caio Fernando Abreu, Ivan Angelo, Luis Vilela,
Roberto Drummond, Ignácio de Loyola Brandão, José Louzeiro e Antônio
Torres, para ficar só entre os principais.
- O quinto e último período vai de 1980 a
março de 2004 e demonstra o descarte da experiência de real
tradicionalmente fornecida pela imprensa. Os escritores que trabalham em
jornal vão se afastar das editorias de hard news, como Política e
Geral, e preferir as editorias de cultura, vinculando-se diretamente ao
mundo intelectual e ao meio editorial.
Vale explicar que só considerei
jornalistas aqueles que efetivamente trabalham na imprensa como
repórteres, redatores e editores, assim como escritores apenas os que
trabalham com a imaginação, produzindo ficção ou poesia. Não estão
incluídos colunistas e cronistas, nem escritores de não-ficção, autores
de biografias, grandes reportagens, ensaios. Esta divisão nos leva de
volta à questão “o que é um autor?”, já levantada por Michel Foucault,
desta vez sob uma ótica comparativa. O que é um autor jornalista e o que
é um autor literário? Como e quando os dois
campos se constituem em separado? Quais as diferenças entre o trabalho
do
escritor na literatura e no jornalismo? De que forma os dois gêneros se
cruzam? A partir de que momento as hierarquias entre eles são
naturalizadas? Qual o papel do escritor, qual o papel do jornalista?
Se na fase dos grandes publicistas, como
Hipólito da Costa; dos políticos-jornalistas-escritores, como José
Bonifácio; e mesmo a dos polígrafos, como Olavo Bilac, os dois tipos de
homens de letras ocupavam praticamente o mesmo espaço no jornal e na
vida literária, a partir da virada do século a literatura se constituiu
como um campo em separado, em que a “arte pura e desinteressada” se
contrapõe à profissionalização, sinônimo de mercantilização e
industrialização, do texto jornalístico.
Progressivamente, os escritores vão se afastar e ser afastados
do jornal. O processo se exacerba a partir do great divide
modernista, entre as décadas de 20 e 50, que não por acaso coincide com
o primeiro boom do mercado editorial brasileiro e com a crescente
industrialização dos jornais. Mas já nas respostas à questão de João do
Rio sobre a influência negativa do trabalho na imprensa nos projetos
literários dos escritores pode-se verificar uma certa ansiedade de
contaminação entre arte e técnica.
De um lado, há posições como a de Luis Edmundo, para quem na
profissão de jornalista o desgraçado mata a sua arte a 300 mil réis por
mês. De outro, defesas radicais, como a de Medeiros e Albuquerque, que
compara a baixa produtividade dos literatos a uma prisão de ventre
intelectual, para a qual o exercício braçal do jornalismo seria o melhor
remédio. O resultado é um empate: dos 37 intelectuais que responderam ao
questionário, 10 afirmaram que o jornalismo prejudica a vocação
literária, 10 disseram que não, 11 responderam que tanto ajuda quanto
atrapalha e seis
não quiseram ou souberam responder.
Uma vez demarcadas as fronteiras, a literatura
ficará identificada com a alta cultura e o jornalismo com a cultura de
massa. As fronteiras serão tão naturalizadas que se esquecerá que as
duas atividades começaram juntas no Brasil, em 1808, quando finalmente
foi permitida a publicação de impressos, com a vinda da Coroa
Portuguesa. E também que a primeira se beneficiou enormente da segunda
para sua difusão, em forma de folhetim, durante todo o século 19 e
início do 20.
Na prática, essas fronteiras começam a desaparecer justamente
quando parecem mais fortemente estabelecidas. Com a modernização da
indústria editorial, surge uma literatura de mercado que já ousa dizer
seu nome, com Benjamin Costallat, Monteiro Lobato, Érico Verissimo e
Jorge Amado, todos best-sellers com experiência em jornais e revistas.
Paralelamente, cresce a necessidade de
especialização da atividade jornalística. O que faz com que escritores
já consagrados, como Graciliano Ramos, passem a ser incorporados pela
imprensa não mais como articulistas externos, na qualidade de
escritores, mas como mão-de-obra interna, na figura do copidesque, um
“consertador” do texto jornalístico.
Curiosamente, será por meio do trabalho de um Oswald de Andrade,
de
um Carlos Drummond de Andrade e de um Graciliano Ramos na imprensa, a
partir dos anos 20, que a literatura, ou, antes, o beletrismo, será
expulsa do jornal. Limpando o terreno para uma separação radical das
técnicas literárias e jornalísticas que culminou com a importação do
modelo americano de concisão, nos anos 50, estes escritores
transformarão sua busca por um texto moderno, menos pomposo e mais
próximo do coloquial, expurgado de barroquismos e seco de adjetivos,
numa cruzada contra ornamentos e penduricalhos na imprensa. A ponto de
Nelson Rodrigues, para
quem a divisão entre texto jornalístico e literário era quase uma
impossibilidade, reclamar do fim da velha imprensa “com ponto de
exclamação”. O problema, segundo ele, é que o repórter hoje mente muito
pouco, cada vez menos.
De mero coadjuvante, como o repórter
sensacionalista Amado Ribeiro, figura real citada em várias peças de
Nelson Rodrigues, entre os anos 60 e 80 o jornalista se torna personagem
principal da literatura brasileira. E não só porque quase toda a ficção
do período foi escrita por gente que vivia o dia-a-dia das redações,
como Carlos Heitor Cony, Antonio Callado, João Ubaldo Ribeiro, João
Antonio, Paulo Francis, Carlinhos Oliveira, Antonio Torres, José
Louzeiro, Ivan Angelo, Ignácio de Loyolla Brandão, Roberto Drummond,
Luis Vilela e Agnaldo Silva, só para citar alguns. Mas porque o
jornalista, assim como o escritor, o padre e o guerrilheiro, foi o
grande protagonista da ficção do período.
Quantitativamente, ganha disparado. São
jornalistas os protagonistas de A festa, de Ivan Angelo;
Cabeça de negro e Cabeça de papel, de Paulo Francis; Um
novo animal na floresta e Domingo 22, de Carlinhos Oliveira;
O inferno é aqui mesmo, de Luis Vilela; Um cão uivando para a
lua e Balada da infância perdida, de Antonio Torres;
Setembro não tem sentido, de João Ubaldo, entre tantos outros,
especialmente no romance-reportagem e nas memórias da luta armada de
Fernando Gabeira & Cia.
Justamente nesse período de embate com a censura e a ditadura
ocorreu uma explosão quantitativa e qualitativa da indústria editorial
brasileira, com a publicação de uma grande quantidade de livros de
ficção. É curioso observar que o regime autoritário, apesar da censura -
incluindo a proibição de cerca de 500 livros, a maioria por causa de
menções sexuais explícitas - testemunha o boom do romance
brasileiro.
Dizer que esses livros só vendiam porque o romance jornalístico
de certa forma substituía a imprensa em sua missão de informar - e que,
quando acabou a censura, ele perdeu a razão de ser - é enxergar apenas
um lado da questão. A retração do interesse dos leitores pela ficção
brasileira a partir da década de 90 parece coincidir tanto com o fim da
censura, que permitiu que os jornais voltassem a tratar de temas antes
só abordados nos livros, quanto com o fim de um projeto de Brasil, por
parte dos escritores e do público leitor. O processo de globalização
marcou o abandono do projeto nacionalista que nasceu com o romantismo,
teve seu momento marcante nas décadas de 30 a 50 e sustentou
praticamente toda a literatura dos anos 60 aos 80.
Em relação ao grande tema da identidade nacional, a partir dos
anos 90 estabeleceu-se um diálogo de surdos (leitores) e mudos
(autores), que pelos menos pareciam concordar neste ponto: “que país é
este?” deixou, durante bom tempo, de ser a grande questão que movia a
literatura brasileira. O novo perfil do jornalista que passa a escrever
ficção nos anos 90 pode ter muito a ver com isso.
Foi para identificá-lo com precisão que empreendi uma nova enquete, entre
2001 e 2003. Meu objetivo principal era saber como os escritores
contemporâneos responderiam à pergunta de João do Rio. O trabalho na
imprensa ainda é um problema ou, a julgar pela grande quantidade de
jornalistas que continuam tentando a literatura um século depois, uma
alavanca na carreira de um escritor?
A pergunta capital de O momento literário foi
desdobrada em 13. Exemplo:
pretendia ser escritor quando ingressou no jornalismo? A linguagem dos
jornais oferece um aperfeiçoamento formal ou bloqueia o texto literário?
A profissionalização por intermédio da imprensa permite a sobrevivência
financeira do escritor ou o afasta de seu caminho? Visibilidade,
ingresso no mercado editorial, maior penetração nos círculos
intelectuais compensam fatores negativos, como a falta de tempo, por
exemplo, ou o pouco espaço para a sensibilidade artística numa redação?
Os próprios escritores foram incentivados a fazer suas listas de prós e
contras.
Com isso, a concisa enquete de João do Rio foi transformada
num amplo
debate sobre jornalismo e literatura, em que é possível descobrir como
conciliam as duas atividades (e às vezes outras, que vão de professor
universitário e a músico de rock) alguns dos principais nomes que
começaram a se destacar nos anos 90. Entre os escritores jornalistas
dessa nova geração, atualmente na faixa dos 40 anos, foram
entrevistados: Antonio Fernando Borges, Arnaldo Bloch, Bernardo
Ajzenberg, Bernardo Carvalho, Cadão Volpato, Carlos Herculano Lopes,
Cintia Moscovich, Fernando Molica, Heloisa Seixas, Heitor Ferraz, João
Gabriel de Lima, José Castello, Juremir Machado da Silva, Luciano Trigo,
Luiz Ruffato, Marcelo Coelho, Marçal
Aquino, Michel Laub, Paulo Roberto Pires, Ronaldo Bressane, Sergio
Alcides, Sergio Rodrigues e Toni Marques.
Das respostas aos questionários enviados a
esses 23 escritores, e da leitura de seus principais livros, algumas
questões saltam aos olhos. A principal diz respeito à experiência.
Embora alguns dos autores mais consagrados no meio editorial, como
Marçal Aquino (Prêmio Jabuti por O amor e outros objetos pontiagudos)
e Luiz Ruffato (Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte e
Prêmio Machado de Assis de melhor livro de 2001 por Eles eram muitos
cavalos) venham do jornalismo de geral, com passagens pela editoria
de polícia, mais da metade dos escritores dessa geração encaminhou-se
para as editorias ligadas à cultura. A mudança de perfil não
é um detalhe e parece estar diretamente relacionada ao tipo de
literatura que jornalistas escritores têm produzido a partir dos anos
90.
Não se deve menosprezar o fato de que
vincular-se à área cultural do jornal é uma estratégia que oferece a
esses autores uma posição relativamente privilegiada no mercado
editorial, pelo contato com editores, críticos, intelectuais e outros
escritores. Mas há desvantagens nessa opção pelos suplementos culturais,
como admitiram vários entrevistados. Se, por um lado, ela pode abrir
portas, de outro, costuma fechar a dos órgãos de imprensa concorrentes
para a divulgação dos livros de um escritor.
De qualquer forma, a concentração nas editorias de cultura revela uma
clara ruptura com os padrões da geração anterior, cujos escritores
buscavam no jornalismo um corpo-a-corpo com a vida, dirigindo-se para as
editorias de política, polícia, geral ou nacional.
Se antes era a realidade brasileira que estava sendo posta
em questão, um
dos temas subjacentes à literatura feita por jornalistas hoje é a
própria cultura, seja ela a erudita ou a do mercado. Certamente, não é
um fenômeno restrito os jornalistas escritores: a desvalorização da
experiência e a metaliteratura parecem ser efetivamente uma tendência da
narrativa pós-moderna. Não por acaso, o jornalista deixa de ser o herói
da nova ficção. Ele não é mais seu protagonista nem narrador
privilegiado.
Em compensação, surgiram novos protagonistas, produtos do
marketing, como o escritor-celebridade de Talk show, de Arnaldo
Bloch, contraponto perfeito
ao escritor anacrônico de Antonio Fernando Borges, que em seus dois
romances (Que fim levou Brodie? e Braz, Quincas & Cia),
dialoga diretamente
com a tradição literária, no caso com Jorge Luis Borges e Machado de
Assis,
sem a mediação da realidade. Há ainda os numerosos calculistas
equivocados, como os arquitetos e engenheiros de Bernardo Ajzenberg,
José Castello e Marçal Aquino.
Acima de todos, paira o protagonista paranóico, com suas
características
fronteiriças: minúcia, pensamento em círculos, visão fragmentada,
incapacidade de traçar um sentido, opção aleatória por uma verdade,
obsessão, capacidade de construir ficções, de encontrar lógica no
ilógico. Presente em quase todos os romances da nova geração, esse
protagonista/narrador paranóico pode ser lido como uma hiperreação
imaginária à desagregação, ao medo e à violência das megacidades na
virada do século 20. E até mesmo como seu subproduto.
Na prática, o jornalista também assume uma
postura diferente a partir dos
anos 90. Já não é mais o homem de letras sem formação específica, que,
por rebeldia, indisciplina ou falta de condições financeiras, abandonou
o curso de Direito pela metade ou nem isso, mas um profissional formado
diretamente para o trabalho jornalístico. Ao contrário da geração
anterior, que teve grandes nomes que passaram longe dos bancos
universitários, como Ferreira Gullar e Antônio Torres, praticamente
todos os escritores jornalistas de hoje são egressos das faculdades de
Comunicação, treinados desde o início para o exercício de um modelo
específico de texto. Fator que certamente contribui para fazer com que a
ficção se transforme no espaço de individualidade desses autores, ao
mesmo tempo em que torna o bloqueio criativo mais resistente.
Se no passado a censura aos órgãos de
imprensa foi um incentivo à busca de
um espaço ficcional, para os autores de hoje, a literatura não é mais
sinônimo de liberdade de pensamento. Mas sim de expressão subjetiva e
liberdade para experimentação formal. A questão não é mais política,
mesmo para os que reclamam do pensamento único veiculado pela imprensa,
mas existencial e estética. A censura prévia caiu em 1978, com a
revogação do AI-5, e a liberdade de expressão foi garantida pela
Constituição de 1988. Mas é inegável que os jornais e telejornais foram
ficando cada vez mais parecidos. O grau de competitividade entre os
vários
tipos de mídia e a disputa dos jornais pelo mesmo mercado (o leitor de
classe média) são em boa parte responsáveis pela visível padronização do
noticiário brasileiro.
A lógica da concorrência, que define como pecado mortal deixar
de publicar uma matéria que todos os outros jornais exibirão no dia
seguinte, somada à lógica da produtividade, que dificulta a exclusão do
repórter da pauta diária, contribui para que os jornais tenham cada vez
menos grandes reportagens exclusivas, que exigem tempo, recursos e
dedicação extras. A estes fatores, devem ser acrescentadas a formação
técnica do jornalista pela universidade; a idade cada vez mais baixa com
que um repórter passa a editor, em geral quando começa a elaborar
criativamente seu texto; a
padronização imposta pelos manuais de redação, a cobertura centrada nos
mesmos assuntos e personagens oficiais e a dependência cada vez maior
das assessorias de imprensa.
A questão política também não deve ser menosprezada. Até os
anos 70, o mercado era ocupado por um grande número de jornais, de
diferentes orientações partidárias, e o leitor era o eleitor dos
diferentes partidos. Hoje, os grandes jornais do Rio de Janeiro e de São
Paulo estão disputando o leitor de centro.Com isso, o profissionalismo
suplantou o romantismo dos anos 60. O fim de século marca o fim do
envolvimento ideológico do jornalista com utopias políticas, quando a
opção por trabalhar numa redação estava particularmente vinculada ao
engajamento político de quem queria mudar o mundo e, portanto, precisava
exibir todas as suas mazelas.
Há uma grande diferença entre os projetos literários da
geração de escritores jornalistas dos anos 60 a 80, extremamente
politizada e marcada pela experiência da
ditadura, e a geração de escritores jornalistas estabelecida a partir
dos anos 90, que se defronta com dilemas típicos da globalização e da
pós-modernidade: desencanto político, individualismo,
desterritorialização, cosmopolitismo, consumismo, cultura massificada,
desemprego, violência. Mas o fato de que seja aparentemente
despolitizada faria dela uma literatura sem projeto social?
Até 2000, novamente com as exceções de Marçal Aquino e Luiz Ruffato, que nesse sentido (e também em seu trabalho jornalístico)
parecem filiados à tradição da geração anterior, os autores demonstravam
pouquíssimo, ou nenhum, interesse em retratar o Brasil. Alguns, como
Bernardo Carvalho, chegaram a fazer de um mosteiro europeu transformado
em refúgio de escritores o cenário de seus livros, revelando o desejo de
fazer uma literatura cosmopolita e global, livre da velha missão de
refletir a realidade nacional.
Mas, coincidentemente, com a virada política do país, começa a
surgir uma nova leva de romances de jornalistas voltados para o Brasil.
O marco pode ser considerado o livro Nove noites, lançado em
2002. Escrito justamente por quem melhor refletiu a ruptura com o
sentido de missão entre os escritores jornalistas contemporâneos, o
livro de Bernardo Carvalho é uma espécie de anti-Quarup.
Assim como na obra de Antonio Callado, também jornalista, o
protagonista viaja ao Xingu e convive diretamente com os índios de uma
aldeia. Mas o Xingu de Bernardo Carvalho só exacerba o grau de
idealização do Xingu de Callado. Seus índios não são dóceis vítimas da
civilização, e sim exibidos com toda sua carga de violência, selvageria
e manipulação da culpa dos brancos. Híbrido, o livro eventualmente se
aproxima da reportagem e da biografia, inventariando documentos,
arquivos, depoimentos, misturando-os a personagens e cartas fictícias e
ainda com as próprias lembranças do autor e de seu pai. Ao falar desse
pai, e de sua morte lenta,
Bernardo Carvalho acaba falando do próprio país. Faz um perfeito
apanhado das relações dos pesquisadores estrangeiros entre si, com as
universidades americanas e francesas e com as instituições brasileiras
durante o Estado Novo. E desvenda a associação das elites urbanas com os
militares, durante a ditadura, que empurra os índios cada vez mais para
o interior.
Nove noites é uma espécie de making of de uma
grande reportagem. Na
forma de cruzar as fronteiras entre literatura e jornalismo, o modelo do
making of se distancia completamente do romance-reportagem dos
anos 60 e do new journalism americano, que incorporaram técnicas
ficcionais à matéria jornalística. A ênfase agora é contrária. Ao
colocar em cena os bastidores da apuração, sua construção em forma de
tentativa e erro, um livro construído segundo a técnica do making of
- como Nove noites, Inveja, de Zuenir Ventura, ou mesmo Santa
Evita, de Thomás Eloy Martinez - faz com que seja impossível
separar realidade de ficção, dados objetivos da subjetividade do autor,
o repórter do escritor.
Uma vez de volta à realidade, percebe-se que, da mesma forma que
as primeiras páginas dos jornais, a literatura contemporânea parece não
ter como fugir de uma questão colocada pelo país: a violência. Mas seria
a violência, tal qual a que se encontra nos livros de um ex-repórter
policial como Marçal Aquino, apenas um tema ou uma nova linguagem? Ou
melhor, uma contralinguagem, capaz não de explicar a tão procurada
identidade brasileira, mas a sua impossibilidade?
Hoje, o país vive um momento em que a violência deixa de ser
problema localizado nesta ou outra área periférica, neste ou outro grupo
social, para se disseminar além da faixa de guerra. A violência, nos
livros de Marçal Aquino, não é mais uma questão de classe, mas difusa.
Trata-se da violência da periferia contra o bairro rico, do homem contra
a mulher, de amigo contra amigo, de matadores profissionais contra
desconhecidos. O próprio amor é visto sob esta versão contemporânea da
educação pela faca como um objeto pontiagudo, como no título de um de
seus livros.
A falência do velho projeto de identidade nacional que a todos
abarcava parece estar diretamente relacionada à emergência da violência
na música do funk e do rap, na televisão, no cinema e na literatura
brasileira contemporânea. Seu reflexo é a criação de Estados paralelos,
faroestes (para citar outro título de Marçal Aquino) urbanos onde a lei
do mais armado prevalece, mas cujas fronteiras cada vez mais ambíguas e
ziguezagueantes permitem vez por outra a entrada de um “invasor”, como o
protagonista do livro/filme de Marçal.
Seria uma esparrela culpar a globalização por tudo - ainda mais
por uma tensão que é endêmica à sociedade brasileira. Mas, numa
comparação com a literatura dos anos 60 a 80, é possível ver como a
questão da violência reflete a progressiva transformação do Estado-Nação
dentro da ordem global. A violência descrita na ficção e nos relatos da
luta-armada e da tortura foi fruto do recrudescimento do Estado durante
a ditadura. A contemporânea, de sua omissão como regulador das demandas
e choques entre as diversas classes, seja por culpa do mercado global,
dos fundos monetários internacionais ou até da própria globalização do
crime e do narcotráfico. O que se percebe é que a diminuição do poder do
Estado em países periféricos como o Brasil levou a uma anomia.
Ainda não apareceu o grande nome, talvez nem tenha sido escrito o grande
livro dessa geração. Se é que este tipo de coisa ainda pode existir. Mas
parece bastante claro que o mercado para a ficção e a poesia
contemporâneas mostra um encolhimento em relação às grandes tiragens dos
autores da geração anterior. Os jornalistas que conseguem chegar às
listas de best-sellers com seus livros escrevem, em geral, não-ficção,
como Ruy Castro, Fernando Morais, Zuenir Ventura e Eduardo
Bueno. O número de exemplares vendidos de seus principais livros faz
deles verdadeiros best-sellers jornalísticos, mas não literários.
Entre os que optaram por ser worst-sellers, insistindo
numa ficção sem retorno comercial, as respostas ao questionário mostram
que, um século depois, com a exceção da alta incidência de LER (lesão de
esforço repetitivo), causada pela dupla jornada à frente do computador,
os prós e contras de um escritor trabalhar na imprensa não diferem muito
dos relacionados pelos contemporâneos de João do Rio. Entre os pontos
favoráveis, os entrevistados destacaram: disciplina, prática diária da
escrita, exercício da clareza e da concisão, ampliação de contato com o
mundo. Contras: baixos salários, longas jornadas de trabalho, estresse,
competitividade e a temida tendinite.
Embora não seja uma pesquisa quantitativa e parta de uma
amostragem pequena - apesar de significativa - do universo dos
jornalistas escritores brasileiros, é possível afirmar que, ao contrário
de 1900, o lado positivo de trabalhar na imprensa foi mais lembrado do
que o negativo. Hoje, a pergunta de João do Rio - o jornalismo,
especialmente no Brasil, é um fator bom ou mau para a arte literária? -
seria respondida com um esmagador “útil”.
Dez entrevistados disseram que a atividade na imprensa é
positiva para um
escritor. Dez afirmaram ser negativa. Um, mais ou menos. Um disse não
ter
importância. E um não respondeu. A possibilidade de viver de escrever foi considerado o principal
ponto a favor da imprensa. A falta de tempo e a esterilização da
linguagem, os fatores mais prejudiciais.
Se as queixas e vantagens são praticamente as mesmas, a
possibilidade de chegar a uma conclusão sobre a pergunta de João do Rio
é tão inviável quanto 100 anos atrás. No máximo, é possível apontar
(parafraseando o artigo de Angel Rama “10 problemas para o escritor
latino-americano”) os problemas mais comuns para o escritor jornalista
no Brasil.
Sem dúvida, o principal é o econômico. Não faltam alusões a esta questão em vários momentos literários.
Num artigo de pouco mais de cinco páginas, “O fator econômico no romance
brasileiro”, publicado em 1945, Graciliano Ramos já chamava a atenção
para a relação entre a precariedade da profissão de escritor no Brasil e
a dificuldade de nossos autores em abordar questões relacionadas a
dinheiro em sua obra. Para ele, o escritor brasileiro não
toca na questão econômica porque tem medo de sujar as mãos com o
dinheiro,
ferindo sua imagem de artista desinteressado. Segundo o autor de
Vidas secas,
uma literatura que se pretendesse moderna não deveria escamotear essas
relações arcaicas, pré-capitalistas, do escritor com o produto de seu
trabalho.
A questão econômica também se estende ao segundo maior problema
apontado nas duas pesquisas. Quando tempo se torna sinônimo de dinheiro,
o maior benefício do jornalismo para um escritor corresponde ao seu pior
inimigo. A profissionalização oferecida pela imprensa tende a afastar o
escritor de seu caminho, pois o tempo se torna mercadoria escassa.
Mas a culpa seria do jornal? A sucessão de queixas e
ressentimentos quanto à impossibilidade de viver de literatura no
Brasil, em qualquer momento literário, aponta para uma razão estrutural.
A situação dos escritores hoje não é muito diferente da identificada por
Olavo Bilac, quase um século atrás. Basicamente, faltam leitores.
Como fazer literatura num país de iletrados? A pergunta vale
tanto para o século passado quanto para o atual. Embora o censo do IBGE
aponte para uma queda dos índices absolutos de 33,6% para 12, 8% de
analfabetismo entre a população acima de 15 anos, entre 1970 e 2000, os
mesmos números mostram que o Brasil chegou ao novo milênio com 17,6
milhões de analfabetos.
Os dados são ainda mais assustadores quando se leva em conta um
grupo mais amplo: o de analfabetos funcionais. O conceito usado pela
Unesco na década de 90 para medir de forma quantitativa a educação em
todo o mundo. O Inaf (Indicador Nacional de Analfabetismo Funcional)
estimou que, entre as pessoas que têm de quatro a sete anos de estudo,
só a metade atinge o nível básico de domínio da língua escrita e da
leitura, necessário para compreender um texto de jornal. Nada menos do
que 1/3 dos que estudaram de um a três anos continuam analfabetos
absolutos. Pela pesquisa, divulgada em 2003, 30% dos alfabetizados lêem
apenas frases soltas, como a dos outdoors. E outros 37% conseguem
apenas ler textos curtos. Só 25% dos alfabetizados no Brasil teriam
pleno domínio da língua. Ou seja, apenas um em cada quatro brasileiros é
leitor potencial de literatura ou jornal. Os outros 75% da população
estariam excluídos do mundo letrado.

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