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ivan angelo

Data de nascimento:
Nasci em Barbacena, Minas Gerais, em 1936.

Atividades profissionais:
Meu primeiro livro ganhou o prêmio Cidade de Belo Horizonte, em 1959. Só foi publicado, com o título Duas Faces, em 1961. De 1959 até 1965 trabalhei nos jornais e revistas mineiros Diário da Tarde, Correio de Minas, Diário de Minas, revista Alterosa. Fui repórter, editor e cronista. E também redator da tv Itacolomi e da asa Criação de Publicidade.

Eu me transferi para São Paulo em 1965, convidado para trabalhar no Jornal da Tarde. Fui fundador do jt, onde fui editor de Artes, secretário de redação, co-editor-chefe e hoje sou crítico de televisão. Fui roteirista da tv Globo em 1981, da série “Plantão de Polícia”. Escrevi também roteiros para a série de tv “Joana”. Sou cronista da revista Veja São Paulo.

Livros publicados:
Duas faces [contos]. Belo Horizonte, 1961. Prêmio Cidade de Belo Horizonte de 1959.
A Festa [romance].
Vertente (1976); São Paulo, Summus (1979); São Paulo, Geração Editorial (1996). Prêmio Jabuti, 1976. Traduzido nos eua: The Celebration (Avon); na França: La Fête Inachevée (Flammarion); na Áustria: Das Fest (Residenz).
A casa de vidro [novelas]. São Paulo, Cultura (1979); São Paulo, Geração Editorial (1996). Traduzido nos eua: The Tower of Glass
; no México: La Casa de Vidrio, em antologia de autores brasileiros
A face horrível [contos]. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1986. Prêmio Associação Paulista de Críticos de Arte.
O ladrão de sonhos [contos]. São Paulo, Ática, 1995.
Amor? [novela]. São Paulo, Companhia das Letras, 1996. Prêmio Jabuti.
Pode me beijar se quiser [romance]. São Paulo, Ática, 1997. Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte em 1997, categoria Romance Juvenil.
História em ão e inha [infantil, em versos]. São Paulo, Moderna, 1997.
O vestido luminoso da princesa [infantil]. São Paulo, Moderna, 1998.
O comprador de aventuras [crônicas]. São Paulo, Ática, 2000.

Livros institucionais para empresas e entidades:
85 anos de cultura. [Sociedade de Cultura Artística]. São Paulo, Studio Nobel, 1998.
Verde amarelo/bleu blanc rouge. [Banco Francês e Brasileiro]. São Paulo, dba, 1998.
Trabalho, coragem, pioneirismo, superação. [Bradesco]. São Paulo, dba, 1999.
Basf 90 anos. [Basf]. São Paulo, dba, 2001.

1. Em 1904, João do Rio publicou O momento literário, uma enquete em que perguntava aos intelectuais brasileiros, entre outras coisas, se a atividade jornalística era prejudicial ou não a um aspirante a escritor. Qual seria sua resposta à pergunta?
Se o cerne da pergunta é se a atividade jornalística é prejudicial ou não a um aspirante a escritor, a resposta é definitivamente não. Nenhuma atividade é prejudicial ao escritor, a menos que lhe tome tempo e idéias necessários ao seu escrever. Qualquer experiência enriquece o escritor. As linguagens de quaisquer atividades de uma época (pintura, cinema, jornalismo, medicina, futebol, bandidagem, comércio, psiquiatria, polícia etc etc) enriquecem a literatura de cada período, justamente pela apropriação que os escritores fazem dessas linguagens. Refiro-me a escritores que não se submetem a elas, antes as dominam e transformam. A literatura do fim do século 19 já digeria o jornalismo, a do começo do século 20 foi enriquecida pela psicologia e pela pintura (impressionistas, surrealistas, cubistas), a do médio século 20 foi remexida pelo cinema, pela política, pela filosofia, a dos anos 1960 reciclou o new journalism e a pop art, a dos anos 1980 incorporou a linguagem e os modos do mercado financeiro e da publicidade, e a dos anos 1990, infelizmente, buscando o sucesso dos espetáculos, copiou as estruturas do videoclipe e dos roteiros de cinema e de tv. Não se pode dizer que houve prejuízo, a não ser no último caso, quando a literatura se colocou num papel subserviente, submeteu-se em vez de submeter.

No caso atual, é preciso considerar o estágio pobre da linguagem do jornalismo impresso, que sofre influência do jornalismo superficial da televisão. Aí, no caso, não há nada de enriquecedor, de fecundador na linguagem jornalística. Na época de João do Rio, sim, havia necessidade de um certo arejamento, de um abalo nas hostes beletristas, e o jornalismo, em vez de prejudicar, pôde até ajudar. Se fosse prejudicial, tantos clássicos antigos e modernos que se dividiram em atividades jornalísticas não seriam o que são: Machado, Bilac, Graciliano Ramos, Monteiro Lobato, Oswald de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Ferreira Gullar, Antônio Callado e tantos outros.

Mas há um caso em que escrever para jornal prejudica o escritor. É o caso do cronista, daquele que tem de usar a sua capacidade de tecer enredos e ficções, de criar personagens e de recriar a sociedade, colocando-a a serviço de uma produção cotidiana, fugaz, fácil de ser compreendida pelo grande público leitor de jornais, tangenciando os problemas mais profundos. O jornal prejudica, ainda, quando desgasta fisicamente o escritor e o entrega cansado à sua atividade criativa ou aos seus estudos e especulações.

2. Na sua opinião, o jornalista é um escritor? O jornalismo é uma vocação ou um ofício? E a literatura?
Não gosto dos conteúdos da palavra vocação. Remetem a um chamado divino, uma convocação, uma missão recebida. Há uma unção passadista, um cheiro de incenso nessa palavra. Faz-se o que se faz por gosto, por jeito, por ter uma habilidade que torna aquele fazer prazeroso ou compensador, e por esse fazer proporcionar, a quem o faz bem, destaque e reconhecimento.

Sim, o jornalista é um escritor, mas não é um criador. É escritor no emprego da ferramenta, no sentido drummondiano de que luta com palavras. Ele transcreve, reproduz, copia, descreve, argumenta, passa objetos do real-concreto para a linguagem simbólica das palavras. Isso exige também habilidade, talento, correção gramatical — mas não é arte. O médico e o engenheiro que escrevem tratados também são escritores, mas não criadores. A língua inglesa usa “writer” para o universo geral dos que escrevem, e “author” para o escritor-criador (pena que modernamente os dois conceitos começam a se misturar).

3. Pretendia ser escritor quando ingressou no jornalismo?
Quando ingressei no jornalismo já era escritor. Fui inicialmente convidado para fazer uma coluna de livros no Diário da Tarde, de Belo Horizonte, em 1958, porque escrevia, fazia parte do grupo de jovens escritores da cidade que ficou conhecido como Geração Complemento. Depois, quando fui convidado para ser repórter no mesmo jornal, já tinha um livro de contos concorrendo ao Prêmio Cidade de Belo Horizonte, em 1959. Então, eu me tornei jornalista porque era escritor-criador, ficcionista, sabia escrever. Antes da obrigatoriedade corporativa dos cursos de jornalismo, as redações alimentavam-se de escritores.

4. Como concilia as duas atividades? Tem ainda outra?
Concilio mal. Perco muito tempo com inutilidades como a televisão, que tenho de ver para comentar. Uma obra como um romance exige tempo livre pela frente, não se escreve nos intervalos. Os intervalos de um romance é que deveriam ser preenchidos com pequenas coisas. Outra atividade não tenho, além do amor. Mulher, filhas, e vem um neto por aí. Pessoas queridas merecem renúncias, senão não vale a pena ser pai, marido. Não sou daqueles gênios que bradam “minha obra em primeiro lugar!” e o resto se der.

5. Por quais editorias trabalhou? Alguma preferência especial pela de cultura?
Não só cultura. Fui repórter de geral por um curto período, em Minas, e tive uma longa fase como secretário de redação no Jornal da Tarde, em São Paulo. Foi a minha mais fase como profissional. Hoje, talvez eu não me sentisse muito atraído pelas editorias de cultura. A área da cultura, nos jornais, foi entregue à indústria cultural, principalmente televisão, discos e cinema comercial, e aos espetáculos pop. Hoje em dia, até moda tem mais espaço do que literatura. Era uma área prestigiada, de bom diálogo com o público culto, mas hoje os suplementos vão desaparecendo. Até livro de prestígio é o que vende. Mercado é a palavra-chave, inclusive na cultura.

6. Convive ou conviveu com outros escritores jornalistas?
Convivi e convivo com ficcionistas jornalistas. João Antônio, Ignácio de Loyola Brandão, Roberto Drummond, Marçal Aquino, Luiz Ruffato e muitos outros. Não me lembro de casos marcantes.

7. Linguagem: o jornalismo oferece um aperfeiçoamento formal ou bloqueia?
Creio que já disse alguma coisa sobre isso, lá para trás. Creio que todas as linguagens são úteis para o escritor. A pintura, por exemplo, a composição de um quadro, pode ensinar muita coisa ao escritor. A música. O cinema: nossa, como já trabalhei com o cinema! Assim, o jornalismo também oferece soluções, sacadas, coisas que o leitor muitas vezes nem percebe. Mas a linguagem é completamente diferente. O jornalismo tem regras que são ditadas pelo diretor de redação ou pelo dono ou pela tradição do jornal. O escritor não tem regra nenhuma de fora, só as que ele se impõe de acordo com seus objetivos pessoais. Ele não tem de ser objetivo, quanto mais subjetivo, melhor. Faz um discurso de indivíduo para indivíduo. Já a linguagem do jornalismo é a de um coletivo de profissionais, a serviço dos negócios de um grupo empresarial, dirigida a uma fatia bem ampla da população. Se o escritor-jornalista compreende essa diferença, não se perde.

8. Profissionalização: o jornalismo permite a sobrevivência financeira do escritor ou o afasta de seu caminho?

Ao longo da nossa história, um grande número de escritores tem usado o jornalismo para sobreviver. Escrever é o que ele sabe fazer, é a sua ferramenta de trabalho. Se é mal-pago, tem de trabalhar dobrado e rouba horas da literatura.

9. Visibilidade, ingresso no mercado editorial, maior penetração nos círculos intelectuais compensam fatores negativos, como a falta de tempo, por exemplo, ou o pouco espaço para a sensibilidade numa redação?
Se um escritor depende do corporativismo dos colegas de redação para ter visibilidade no meio literário, alguma coisa vai mal na literatura dele. Além do mais, círculos intelectuais universitários menosprezam jornalistas literatos, a menos que estes se imponham pela qualidade.

10. Liberdade de pensamento: esta foi uma das razões que o levaram à literatura?
Não, esta não foi uma das razões que me levaram à literatura. Comecei a escrever num período de muita liberdade no país, a era de jk. O que me moveu, creio, foi o desejo de criar enredos e personagens, de jogar com palavras para encantar os outros — fascinação que eu próprio experimentava ao ler. Eu queria fazer aquilo. O que me levou a escrever foi a leitura.

11. O que faria o livro superior ao jornal?
Estamos falando de livros de ficção, certo? Então, essencialmente, seria a linguagem.

12. Faça sua própria lista de prós e contras.
Pró-jornalismo: salário, prestação de serviço à coletividade, alguma influência nas decisões do cotidiano, diálogo relativamente quente com a população, maior contato com hábitos e costumes diferentes, participação maior na vida da cidade; contra: tendência para a superficialidade, busca do sensacional, suga demais os profissionais, encanta e ao mesmo tempo decepciona.

13. O jornalismo influenciou a sua literatura de alguma forma (linguagem, estrutura ou temática)?
Influência, não. Não tenho em boa conta a linguagem jornalística, a estrutura é linear e pobre em termos de literatura, a temática fornece elementos que a própria vida urbana oferece. Tenho usado alguma coisa do jornalismo de forma paródica, ou irônica, ou como pastiche. Mas aí é um recurso consciente, não é uma influência. Assim como já usei poesia, rádio, documentos coloniais, tudo com a mesma intenção plástica.


 

 

Pena de Aluguel :: Cristiane Costa
Página desenvolvida por Elizabeth Sucupira :: 2005