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ferreira gullar
Entrevista realizada em
seu apartamento, em Copacabana, em 29 de janeiro de 2002.
Data de nascimento:
1930, em São Luís, no Maranhão, filho de quitandeiro.
Formação educacional:
Fiz um ano de ginásio, completado com o profissionalizante da Escola
Técnica de São Luís.
Formação profissional:
Fui locutor da Rádio Timbira e colaborador do Diário de São Luis.
Mas resolvi deixar a cidade depois de publicar com recursos próprios o
primeiro livro de poesia, Um pouco acima do chão e ganhar o
primeiro prêmio do concurso de poesia do Jornal das Letras, em
1950, onde colaboravam os maiores escritores da época. O prêmio do
jornal dirigido pelos irmãos José e João Condé acabou rendendo meu
primeiro emprego como jornalista no Rio: na revista do
iapc (Instituto de
Aposentadoria e Pensão do Comércio), espécie de house organ, que
intercalava portarias do instituto com listas de lojas onde os
funcionários tinham desconto, dirigida por João Condé. O emprego foi
conseguido por intermédio do também poeta maranhense Odylo Costa, filho,
procurador do instituto, e integrante da comissão julgadora que me
premiou. Da folha de pagamentos da revista, também constava o escritor
Lúcio Cardoso, que quase nunca aparecia no trabalho. Tuberculoso,
só assumi o emprego em 1952.
A
literatura abriria as portas do jornalismo mais uma vez. Publiquei um
conto, “Osíris come flores”, na revista Japa. Outro escritor, o
mineiro Herberto Sales, leu e me convidou para ser revisor da revista
O Cruzeiro, na época a mais importante do país. Na gráfica da
revista, imprimi meu segundo livro, A luta corporal. Mas, por
causa de discussões sobre a execução do livro, acabei quase indo às vias
de fato como chefe da gráfica. E, por isso, fui demitido.
Novamente um escritor correu em meu auxílio. Chefe de redação da
Manchete, Otto Lara Resende me contratou como revisor, enquanto não
descolava uma vaga como redator. Na Manchete, ensaiei a edição de
páginas “concretas” para desespero de Bloch, revoltado com o gasto de
papel em branco. Na verdade, a inspiração não vinha da poesia ou das
artes plásticas — embora certamente venha daí o gosto pela diagramação,
pela composição gráfica ousada —, mas da revista Paris-Match, que
lançou a moda de títulos de página inteira, fotos grandes e textos
concisos.
O pior foi quando aproveitei uma reportagem sobre a proibição de se
colocar um busto do poeta Manuel Bandeira numa praça do Recife (a lei
interditava a inauguração de estátuas de gente viva em locais públicos)
para fazer uma página gráfica. “Que esculhambação é essa? O papel custa
caro e fazer tudo vazio, em branco, isso é um absurdo!”, reclamou o
Bloch. Fiz uma gozação, espalhando cartazes pela redação denunciando um
suposto preconceito de cor e uma guerra contra o branco. A briga com
Bloch teve mais um round, quando apareci na
tv Tupi mal-vestido, barba
por fazer, durante um programa ao vivo. “Quem autorizou você a
representar a Manchete na televisão vestido como se fosse um
moleque?”, gritou no dia seguinte. Mas, para minha surpresa, no mesmo
dia ele voltou à redação para me convidar para a comemoração de seu
aniversário. “Gullarzinho, você está zangado comigo? Você não vai fazer
essa desfeita porque nós vamos cortar o bolo agora.” E me abraçou.
Mas as constantes divergências de opinião levam à demissão de Otto e
toda a equipe. Fui para o Diário Carioca trabalhar com revisor. E
logo depois para o Jornal do Brasil, onde participei da criação
do histórico Suplemento Dominical do Jornal do Brasil,
sdjb, com Amílcar de
Castro, com quem trabalhei na Manchete, e Reynaldo Jardim. Os
donos do jornal se dividiam entre os que amavam o suplemento, a condessa
Pereira Carneiro, e os que o detestavam, seu genro Nascimento Brito. Em
1958, ocupei o cargo de chefe do copidesque, mas fui demitido numa
desavença interna. Fui para o Diário de Notícias, novamente como
revisor. Menos de um ano depois, fui chamado de volta ao
jb, num momento que
coincide com o lançamento do movimento neoconcretista no Rio, cujo
manifesto é publicado numa edição especial do
sdjb.
Em 1963, após liderar uma greve, fui demitido. Acabei indo trabalhar
como copy na surcursal de O Estado de S. Paulo. Em1969,
fui eleito membro da direção estadual do
pcb e entrei na
clandestinidade. Dois anos depois, desisti de viver encarcerado nos
quartos dos fundos dos amigos e parti para um exílio que duraria seis
anos e sete meses, por cidades como Moscou, Santiago, Lima e Buenos
Aires. O Estadão continuou pagando meu salário, o que permitiu a
sobrevivência da minha família. Essa era uma norma desde que o diretor
do jornal (Júlio de Mesquita Filho) teve que se exilar durante a
ditadura Vargas. Voltei do exílio em 1977 e retomei meu emprego no
jornal. Dois anos depois, a convite do Dias Gomes, passei a trabalhar
como roteirista da tv
Globo, onde escrevi as novelas Sinal de alerta e Araponga,
coordenei a série Aplauso, com adaptações de peças teatrais,
escrevi episódios das séries Carga pesada e Obrigado, doutor,
o especial Insensato coração e a minissérie As noivas de
Copacabana. Também me envolvi no projeto da Casa de Criação, para a
formação de novos roteiristas.
Em 1993, fui demitido do Estadão. Em 2000, menos de um ano depois
da morte de Dias Gomes, da tv
Globo. Eu sou sempre demitido dos meus empregos.
Livros publicados:
Um pouco acima do chão.
1949 [edição do autor].
A luta corporal.1954
[edição do autor].
Poemas.
Rio de Janeiro, Edições Espaço, 1958.
Teoria do não-objeto.
Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1959.
João Boa-Morte, cabra
marcado para morrer.
Rio de Janeiro, cpc-une,
1962.
Quem matou Aparecida.
Rio de Janeiro, cpc-une,
1962.
Cultura posta em
questão. Rio de
Janeiro, Civilização Brasileira, 1965.
A luta corporal e
novos poemas. Rio de
Janeiro, José Álvaro, 1966.
Se correr o bicho
pega, se ficar o bicho come
(com Oduvaldo Vianna Filho). Rio de Janeiro, Civilização Brasileira,
1966.
A saída? Onde fica a
saída? (com
A.C.Fontoura e Armando Costa). Rio de Janeiro, Grupo Opinião, 1967.
Por você, por mim.
Rio de Janeiro, Speed, 1968.
Dr. Getúlio, sua vida
e sua glória (com
Dias Gomes). Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1968.
Vanguarda e
subdesenvolvimento.
Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1969.
Dentro da noite
veloz. Rio de
Janeiro, Civilização Brasileira, 1975.
Poema sujo.
Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1976.
Antologia poética.
São Paulo, Summus, 1977.
Uma luz sobre o chão.
Rio de Janeiro, Avenir, 1978.
Um rubi no umbigo.
Rio de Janeiro,
Civilização Brasileira, 1978.
Na vertigem do dia.
Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1980.
Toda poesia.
Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1980.
Sobre a arte.
São Paulo, Avenir e Palavra Imagem, 1982.
Os melhores poemas de
Ferreira Gullar. São
Paulo, Global, 1983.
Etapas da arte
contemporânea: do cubismo à arte neoconcreta.
São Paulo, Nobel, 1985.
Crime na flora ou
ordem e progresso.
Rio de Janeiro, José Olympio, 1986.
Barulhos.
Rio de Janeiro, José Olympio, 1987.
Poemas escolhidos.
Rio de Janeiro, Ediouro, 1989.
Indagações de hoje.
Rio de Janeiro, José Olympio, 1989.
A estranha vida banal.
Rio de Janeiro, José Olympio, 1989.
O formigueiro.
Rio de Janeiro, Europa, 1991.
Argumentação contra a
morte da arte. Rio
de Janeiro, Revan, 1993.
Gamação.
São Paulo, Global, 1996.
Nise da Silveira.
Rio de Janeiro, Relume Dumará, 1996. (Coleção Perfis do Rio).
Cidades inventadas.
Rio de Janeiro, José Olympio, 1997.
Rabo de foguete.
Rio de Janeiro, Revan, 1998.
Muitas vozes.
Rio de Janeiro, José Olympio, 1999.
Um gato chamado
gatinho. São Paulo,
Salamandra, 2000.
O menino e o
arco-íris. São
Paulo, Ática, 2001.
Relâmpagos.
São Paulo, Cosac & Naify: 2003.
Os melhores poemas de
Ferreira Gullar. São
Paulo, Global, 2004.
1. Como responderia à pergunta levantada por João do Rio? O jornalismo é
prejudicial à literatura?
A mim
não atrapalhou em nada. O jornalismo foi o ganha-pão. Como a literatura
não dá camisa a ninguém, não se consegue viver de literatura no Brasil,
é preciso encarar um emprego fixo.
2. E ajuda?
Acho que sim, em especial o jornalismo moderno. O que chamo moderno
é o jornalismo realizado a partir dos anos 1950, que acabou com o nariz
de cera e o jornalismo subliterário. Ele te fazia buscar a limpeza do
texto, a objetividade, o que só ajuda a literatura, esse jornalismo
limpa a literatura de qualquer tendência à prolixidade. É disciplinador.
Não é que se deva fazer a literatura como se faz jornalismo. Mas ver a
linguagem como um instrumento é importante.
3. Como conciliava?
Talvez se eu fosse romancista, a coisa fosse mais complicada. Mas o
poeta não é um trabalhador braçal da literatura. A poesia é eventual,
inesperada. Não dá para sentar e dizer: hoje vou fazer dez poemas. Isso
é inviável, você não controla, o poema pode acontecer em qualquer lugar.
Antes de ser escrito, ele pode surgir como idéia, como fecundação, em
qualquer lugar, inclusive na redação. O que não quer dizer que você deva
parar tudo para escrever, pode tomar nota e guardar na gaveta. Mas
também não te impede de ficar pensando nele. Nesse sentido, a falta de
tempo não prejudica muito. Pelo menos, a mim nunca prejudicou. Até certo
ponto ajudou. É uma coisa do meu temperamento. Sempre escrevi pouco. E
gostava de fazer outras coisas.
4. Jornalismo é vocação ou ofício?
Minha vocação, salvo engano, é a poesia. Mas a minha profissão foi a
vida inteira o jornalismo. Não posso dizer que fosse a minha vocação.
Trabalhei com muitos jornalistas por vocação, como Jânio de Freitas,
pessoas cuja paixão era a imprensa. Não foi o meu caso. Trabalhei com
muito prazer, foi a melhor profissão que poderia ter na vida. Convivi
com pessoas muito interessantes, engraçadas, amigas, mantive-me a par de
tudo o que estava acontecendo no Brasil e no mundo. Mas não era a minha
realização.
5. Escritor é profissão?
Não é profissão, não. E talvez poesia não seja nem literatura. É uma
coisa tão extemporânea, tão fora das normas que, ou a poesia é a pura
literatura ou ela não é literatura. Ninguém faz literatura
objetivamente, a não ser aqueles escritores americanos de
best-sellers. A objetividade se refere muito mais ao artesanato, à
técnica, ao domínio da linguagem. Em matéria de arte, a técnica é
imprescindível mas não suficiente.
6. Trabalhar com literatura ajudou-o no jornalismo?
Sim, deu um domínio maior da língua, uma segurança maior com relação
ao instrumento e uma preocupação nata com a economia, com a eficiência
da linguagem, com a palavra que não pode ser nem mais nem menos. A
poesia é a linguagem econômica por definição. Isso no jornalismo é
importante. Desde que não se leve dez horas para fazer uma notícia.
7. O jornalista é um escritor?
Sim, o jornalismo é uma forma de literatura. É um uso da linguagem
escrita que requer uma técnica. Claro que, dentro de qualquer atividade,
existem gradações de competência e capacidade de usar o instrumento. Mas
o bom jornalista domina uma técnica própria.
8. No início do século 20, o escritor ia para o jornal mas se
mantinha como escritor, assumindo o papel de colunista, crítico ou
cronista. Já na geração anterior à sua, isso muda. O escritor entra no
jornal para ser jornalista no sentido exato do termo. Na sua geração
isso fica ainda mais forte. Por quê?
Não é mais o cara que vai para ser estrela.
9. É uma diminuição no status do escritor?
Nunca pensei sobre isso, mas acho que é algo deve ser visto junto
com a evolução do próprio jornal e sua transformação em empresa. O
jornal do começo do século tinha muito de literatura, inclusive no
próprio texto jornalístico, a notícia era dada em forma de crônica. Aos
poucos, o jornalismo vai se tornando objetivo, tornando-se um serviço
essencial de informação para uma sociedade cada vez mais complexa.
10. Isso refletiria uma escalada da industrialização?
Sim, por isso o jornal vai necessitar cada vez mais do redator, é
preciso que se opine menos e informe mais. O escritor já não pode mais
ocupar no jornal o lugar do cronista porque o jornal necessita muito
mais do trabalho dele em outros setores, na redação da notícia. Todos
tinham função jornalística. O que não impedia que, já que estavam na
redação, escrevessem sobre literatura, eventualmente, como eu mesmo fiz
no sdjb. Os
suplementos do Correio da Manhã e do Diário de Notícias,
que vieram antes do sdjb,
eram tradicionalmente dirigidos por escritores. Antes ainda, o
suplemento Letras e Artes do jornal A Noite foi dirigido
pelo Otto Lara Resende. E não sei se não está havendo uma nova
transformação nesse processo.
11. Como assim?
Parece-me estar ocorrendo uma exclusão do homem de letras no jornal.
A presença de um Graciliano, de um Otto, era também uma valorização do
dono do jornal em relação aos escritores. Ele achava que davam brilho ao
órgão de imprensa, além de ser uma garantia de qualidade do texto. Esse
jornal necessitava de qualidade de texto, coisa que, a cada dia que
passa, necessita menos. A quantidade de erros de português que sai no
jornal é enorme. Ninguém liga, ninguém corrige. Antigamente, dava
demissão. Ninguém queria ter um jornal cheio de erros. Respeitar a
língua era fundamental.
12. Você conviveu com outros escritores dentro das redações pelas
quais passou. Guarda lembranças de casos e discussões?
Na revista O Cruzeiro, eu trabalhava na oficina como revisor
de texto, numa seção dirigida pelo romancista Herberto Sales. Eu
emendava os erros de português, mas raramente reescrevia. Lá na redação,
ficava o Davi Nasser. Fui para a Manchete, onde trabalhei com o
Otto Lara Resende. Demitido, ele me descolou uma vaga de revisor
enquanto não pintava uma de copy, por indicação do Millôr.
13. Ele sabia que você também era escritor?
Claro. Ele era amigo da Lucy Teixeira, escritora maranhense que
estudou em Belo Horizonte. Quando surgiu a vaga de redator, ele me
promoveu. Mas o Adolfo Bloch foi contra. Por preconceito, achava que eu
era revisor e um revisor não podia ser redator. O Otto dizia para ele
que eu era o maior poeta jovem do Brasil e, de sacanagem, ameaçava:
“Você vai se lascar. Na sua biografia vai constar que você perseguiu o
Ferreira Gullar”. Mas o Adolfo não acreditava. Escritor para ele era o
Rubem Braga, que quase não ia na redação, mas que assinava uma coluna de
perfis chamada Gente da cidade. Às vezes, ele bebia demais e não mandava
o texto. Então, o Otto ligava danado: “Poxa, cara, tá fechando a
revista, cadê a coluna?”. O Rubem respondia que não ia dar naquela
semana e falava que era para eu fazer que ele assinava. Aí lá vinha o
Otto pedindo. Houve uma vez em que eu fiz uma especialmente divertida. O
Adolfo chega na redação: “Otto, esse Rubem Braga é um gênio. Esse Gente
da cidade desta semana está uma maravilha”. Aí o Otto chamou várias
testemunhas e pediu para ele repetir. Depois contou que não tinha sido o
Rubem, mas eu quem tinha escrito. Ele achou que era sacanagem. Depois,
passou essa implicância. Ele me encontrava na rua e pedia pra voltar.
“Gullarzinho volta para minha revista”, dizia. Eu respondia: “Nunca,
prefiro morrer a trabalhar na sua revista de novo”.
14. E com Nelson Rodrigues? Ele gostava de citar você nas crônicas.
Atrás da Manchete, tinha a Manchete Esportiva, em que
trabalhava a família toda do Nelson Rodrigues. Ele era uma figura muito
engraçada. Tinha um boteco em frente, onde todo mundo ia para tomar café
e bater papo para relaxar um pouco. O Nelson estava sempre lá porque o
que menos fazia na Manchete era trabalhar. Os irmãos é que faziam
a revista. Um dia, ele chegou: “Companheiro Gullar, olha ali aquele
jornal”. Estava escrito em letras garrafais “Matou a mulher com cinco
facadas”. O Nelson veio com essa: “Em vez de matar, um idiota desses
devia dizer para a mulher ‘perdoa-me por me traíres’”. Eu até hoje não
sei se ele pensou na hora e depois escreveu ou se já estava escrevendo a
peça e soltou para testar a reação. O Nelson improvisava as coisas mais
incríveis.
15. Vocês discutiam literatura?
Às vezes, mas não num clima muito professoral. Comentava algum
livro, falava mal de alguém, essas coisas.Ele me deu para ler A
mulher sem pecado, sua primeira peça e depois ficou me cobrando.
“Gullar, você tem que me dar A luta corporal com dedicatória.
Isso não pode ser, eu ficar ao lado de você trabalhando e não ter seu
livro”. Dei com a dedicatória “a Nelson Rodrigues, grande dramaturgo,
moralista da Zona Norte, um abraço”. Ele ficou danado. Como moralista?
Eu falei: rapaz, você diz que a mulher depois do primeiro beijo não é
mais virgem. Isso nem a minha sogra.
Lembro-me também de um dia de verão, uma tarde de calor infernal naquela
redação, o Nelson Rodrigues abriu a porta, puxou a cadeira e perguntou
bem alto: “Quem é aqui que acredita em amor eterno?” Tudo para dizer que
nós éramos cretinos. Thiago de Mello, que nessa época estava fazendo
frila na Manchete, ainda olhou pra ele. O Nelson nem esperou.
“Thiago de Mello não vem você me dizer que acredita. Mentira.” Era muito
divertido.
16. De alguma forma o jornalismo influenciou sua literatura?
Deve ter influenciado, no sentido de que fiz de palavras banais,
políticas e antipoéticas meu instrumento de expressão cotidiano. Elas se
tornaram parte de meu vocabulário e da minha literatura. É diferente do
escritor que só trata com palavras literárias, mais finas, que fica em
casa ou dentro de um gabinete. Creio que modos diferentes de viver
conduzam a modos diferentes de escrever.
17. O jornalismo deu visibilidade ao escritor?
Pelo contrário, foi a literatura que me abriu as portas do jornal.
18. Há algum poema seu que fale especificamente do jornal?
Não me lembro. Mas “traduzir-se”, por exemplo, foi escrito no meio
do expediente no Estadão. De certa forma, ele expressa a divisão
entre o poeta, que tenta explicar o inexplicável, e o jornalista, que
escreve o feijão-com-arroz. O solitário que se pergunta o sentido das
coisas e o homem público, político, que tem os pés no mundo.
19. Fazer roteiro para tv
e cinema também foi um caminho trilhado por vários escritores
jornalistas. O que te levou a isso? Foi um encaminhamento natural de seu
trabalho no teatro, como aconteceu a outros dramaturgos de esquerda na
época?
Quando cheguei do exílio, em 1977, o Dias Gomes me convidou com o
propósito de me dar emprego. Trabalhamos juntos no teatro, escrevendo a
peça Dr. Getúlio, sua vida sua glória e ficamos bons amigos.
Expliquei que nunca tinha escrito para
tv e ele prometeu me
ensinar uns macetes. Minha primeira novela foi Sinal de alerta, a
primeira que falava em poluição. Na mesma época, trabalhava no
Estadão. Ficava apertado às vezes. Acordava cedo, interrompia para
ir pro jornal. Mas dei sorte porque naquela época a sucursal estava
fraca, tinha pouca coisa para fazer. Chegava às três horas, saía às
seis, sete da noite. Já era complicado porque a maior parte do
copidesque era feita mesmo em São Paulo e as reportagens especiais eram
feitas por repórteres de gabarito, de modo que revia só por alto, não
tinha que reescrever. Não era um trabalho pesado de jornal. Vinha para
casa e de noite trabalhava. Mas eu estava cheio de problemas
financeiros, com filho doente. Quando fui para o exílio, o jornal
continuou pagando meu salário, mas não o que eu ganhava, o salário de um
redator iniciante. Tudo bem, foi importante, foi melhor do que nada.
Mas, quando voltei, continuaram pagando o mesmo salário. Aí não dava.
20. A tv pagava bem
melhor?
Nunca tive em televisão o salário dos grandes roteiristas. Por
cautela, optei por ser funcionário e não trabalhar por contrato. Era um
pega pra capar, uma guerra. Mais tarde, quando eu já tinha tarimba,
montou-se a casa de criação e fui trabalhar como um dos diretores. Aí o
salário aumentou muito e tive que virar firma.
21. O que caracterizou a sua geração de escritores jornalistas? Foi o
embate político?
Primeiro, tenho que ver quem é a minha geração. A de 1945, de João
Cabral, é anterior à minha. Sou, na verdade, da geração do Haroldo, do
Augusto, do Décio, embora eu não tenha mais nada a ver com eles. Foi uma
geração apolítica, formalista literariamente, existencialista, meio
metafísica, ontológica. Mas aí o Brasil muda. Eles continuaram. Eu virei
político.
22. Seu perfil se encaixa bem com a geração de 1960, embora ela tenha
produzido mais romancistas.
Realmente não fico na minha geração. Ela foi meio que derivada de 1945.
Pegue a história da literatura brasileira. Verá que há uma ruptura em
1922, ruptura com as formas clássicas e parnasianas e opção pela
linguagem coloquial na poesia. Aí essa linguagem vai ficando literária,
com Drummond. Aí vem a geração de 1945. Eu, que nasci no Maranhão e
estava na contra-mão da história, parnasiano quando todos eram
modernistas. Quando viram parnasianos, viro maluco. Augusto e Haroldo,
embora se dizendo contra a geração de 1945, são supra sumo dela, o
máximo de formalismo. Eu, que entro como um selvagem fora de época,
vestido de sertanejo no meio da metrópole, crio uma confusão em meio
disso e saio fora. E qual é a geração política? A de Vianinha, do teatro
que almeja a participação política. Acabo por me inserir na geração
seguinte, que começa a atuar nos anos 1960. E enfrento o mesmo dilema:
como fazer uma literatura politizada de alta qualidade.
23. E quanto à relação com o partido comunista? Outros escritores
jornalistas antes tiveram uma aproximação com o
pcb e romperam ou se
desiludiram, como Oswald, Drummond e Graciliano. O que faz com que nos
anos 1960 o pc voltasse a
assumir um papel tão importante na cultura brasileira?
Num primeiro momento, nessa etapa anterior, o partido é a revolução.
Como já disse Sartre, a Revolução Soviética muda o mundo. É como uma lua
a atrair todo um oceano, aumentando as marés. É o sonho da mudança, da
justiça social, de mudar tudo. Criticamente, você depois vê que esta
palavra “revolução” é vazia e contraditória, antidemocrática. Fatores
que depois ficam evidentes: se eu faço uma revolução em nomes dos
pobres, ela se justifica. Depois eu instauro uma ditadura. É um momento
de descoberta da classe operária, dos miseráveis. Mudar isso é a utopia
que estava na cabeça do Drummond, do Graciliano, do Mário Pedrosa. Como
Drummond era menos fantasista; ético e personalista demais, saiu logo.
Esse sonho é da geração deles.
24. Em que ele é diferente do da geração dos anos 1960?
Não é a mesma utopia. Não é mais
urss, é Cuba. A Revolução
Cubana conseguiu romper com o imperialismo e incendiou a América Latina.
Marx dizia que a sociedade propõe o que é possível ser realizado. Não
propõe o impossível. Quando Cuba faz a revolução aqui do lado, com meia
dúzia de caras, tudo passou a ser possível. Todo mundo sabia que aqui
havia latifúndio, camponês com fome. Nós que descobrimos isso? Não, a
geração de Graciliano já falava disso. Mas é que depois deles veio uma
geração que não discutia essas questões, mas a subjetividade e o
individualismo. Eu era concretista, mas de repente a realidade me mostra
que eu sou brasileiro. Então, o que estou fazendo aqui? Sou filhote de
Rimbaud? Que porra eu sou?
25. Mas muda também o foco, não é mais tanto o camponês, mas o miserável
urbano que vira o foco da literatura?
O fator deflagrador do processo social continua sendo a reforma agrária,
mesmo quando se fala de crescimento urbano. O problema da urbanização é
conseqüência da miséria do campo. Quando Cuba fez sua revolução, achamos
que poderíamos também. E isso deflagra o golpe militar. Porque esse
“podemos também” tinha que aprender que não podemos não. Francisco
Julião veio para mim dizendo que tinha 300 mil homens armados prontos
para fazer a revolução e tomar o poder. Fui chamado a participar.
Cheguei a fazer parte do Conselho Nacional das Ligas Camponesas. Até
descobrir que aquilo ali era um despautério, uma loucura, e Julião um
ingênuo. Aí veio o golpe e acabou com tudo.
26. Quais as melhores lembranças que guarda do jornalismo?
Uma das melhores foi como redator da primeira página do Diário
Carioca. O jornal tinha como característica a irreverência, a
liberdade. O diretor, Pompeu de Souza, era um sujeito muito
bem-humorado. Além da objetividade, era um jornalismo muito engraçado.
Inventava assuntos malucos, como a história do gavião que estava comendo
os pombos da Candelária. Isso rendeu muita primeira página. O jornal era
feito com humor. Eu me formei nessa escola. Hoje, os jornais cobrem
todos os mesmos assuntos. Só as colunas são diferentes.
Mas o jornal estava falindo. Então, o Carlos Castello Branco me indicou
a Odylo Costa, filho, que tinha ido para o
jb fazer uma grande
renovação naquele que era um jornal de classificados, e fui trabalhar
como chefe do copidesque. Revia os textos e fazia os títulos. A
renovação do jornal, sobretudo a gráfica, começou no Suplemento
Dominical. Como um subversivo que vai infiltrando seus pares, sugeri
que convidassem o Amilcar de Castro. É assim que se faz a história: um
grupo de pessoas que pensa igual e quer incutir uma idéia nova,
propagando-a. O Reynaldo Jardim adorou e começou ele próprio a fazer
igual, de maneira às vezes até mais audaciosa e irreverente. Isso criou
problema com a direção, novamente a história do branco, papel sobrando.
[Gullar é capaz de recitar de cor legendas e títulos feitos naquela
época como se fossem estrofes de seus versos.]
27. Foi uma época áurea do jornalismo.
Foi a época áurea do copy. O corpo de redatores era repleto
de estrelas, pessoas que você fica pensando como podiam ter sido
copidesques. Hoje, praticamente acabou a figura do redator, assim com a
do pauteiro e a do revisor. Atribuições foram todas para o editor, cada
vez mais novos, responsável por tudo e ainda fazem reportagem. Daí
porque o jornal é tão mal escrito, tem erros terríveis de português.
28. O que mais mudou?
Nessa época começou outra grande transformação: o
horário. Quando trabalhava no Diário Carioca, saía de lá à uma da
manhã. No Diário de Notícias, por volta de meia-noite. Não havia
necessidade de fechar cedo, quanto mais notícias do dia pudesse colocar,
melhor. O que determinou a mudança foi a expansão da circulação do
jornal para fora da cidade. “Não pode perder o embarque”, ouvi muito
isso. Com isso, essa coisa do jornalista boêmio saía de madrugada para
tomar um chope antes de dormir acabou. O jornal fecha cada dia mais
cedo. Antes, havia o matutino e o vespertino. O Globo era
vespertino e a Tribuna da Imprensa também. O transporte foi
determinante para virarem todos matutinos. Com isso, praticamente
acabaram os bares que marcaram a minha geração, Vermelhinho,
Jangadeiros, Fiorentina etc.
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