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carlos heitor cony

Data de nascimento:
1926, subúrbio de Lins e Vasconcelos, no Rio de Janeiro.

Formação educacional:
Ex-seminarista, de 1938 a 19415, com formação em Filosofia. Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil (hoje ufrj), de 1946 a 1947.

Formação profissional:
Ingressei na profissão em 1947. Quando saí do seminário, meu pai, Ernesto Cony, que era jornalista, por conta própria achou que eu devia seguir a profissão dele e arrumou com um amigo para eu ir trabalhar na Gazeta de Notícias.Tinha sido um jornal importante, mas não na minha época. Era um jornal decadente, numa zona meio sórdida da cidade. Comecei fazendo crônica parlamentar sobre a Câmara Municipal. Mas eles não pagavam e eu saí. Depois, fui trabalhar na rádio e no Jornal do Brasil, primeiro substituindo meu pai, quando ficou doente. Ele era redator do jornal, mas exercia função de repórter. Era um jornalista muito modesto e ficava numa redação onde trabalhavam os pesos-pesados, como Barbosa Lima Sobrinho e Nelson Carneiro. Quando meu pai adoeceu, combinaram não chamar ninguém para a vaga, para ele não perder o salário. E resolveram chamar o Conyzinho para ficar de regra três. Eu nem recebia salário. Depois, fui para o Suplemento Dominical do jb, onde trabalhei com o Ferreira Gullar, Mario Faustino, Zuenir, Carlinhos Oliveira, Oliveira Bastos, José Lino Grunewald, Eduardo Jardim.

Em 1960, fui para o Correio da Manhã, como copidesque, e, no ano seguinte, passei a assinar a coluna Da arte de falar mal, revezando com Octavio de Faria. Em 1963, passei a escrever também a publicar uma coluna na Folha da Manhã, de São Paulo, revezando com Cecília Meirelles.

Em 1965, saí do Correio da Manhã, onde publiquei uma crítica contundente à Revolução, em 9 de abril de 1964, a histórica “O ato e o fato”. Por conta disso, acabei demitido e Antônio Callado, então redator-chefe, saiu junto, revoltado por não ter sido consultado.

Em 1967, fui para Cuba, como jurado do concurso promovido pela Casa de las Américas, onde fiquei exilado por quase um ano, mas voltei em 1968 para ser preso. Fui preso seis vezes. Sem emprego, recebi um convite para trabalhar nas revistas do grupo Bloch, onde já tinha feito uma série de reportagens que viraram livros, mas como frila. Minha função era reduzir as 5 mil páginas das memórias de Juscelino para mil páginas. E ele do meu lado, interferindo em tudo. Depois da morte de Juscelino, virei diretor da tv Manchete. Queriam que eu escrevesse novela, mas eu não tenho saco para escrever trinta laudas por dia. Preferi fazer sinopses e supervisionar o núcleo de dramaturgia. Também trabalhei nas revistas Manchete e Ele & Ela, como diretor. Na verdade, a experiência da Manchete ainda não acabou. Meu nome continua no expediente, o grupo que cuida da massa falida mantém.

Em 1993, voltei à imprensa diária para ocupar o lugar de Otto Lara Resende como colunista da Folha de S.Paulo, onde escreve uma coluna todos os dias, na página editorial e na Ilustrada aos sábados. Também faço parte do Conselho Editorial.

Livros publicados:
Ficção:

O ventre. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1958. [A editora tinha um contrato com o escritor para a entrega regular de obras de ficção.]
A verdade de cada dia, 1959.
Tijolo de segurança, 1960.
Informação ao crucificado, 1961.
Matéria de memória, 1962.
Antes, o verão, 1964.
Balé Branco, 1965.
Pesach, a travessia, 1967.
Sobre todas as coisas, 1968 (contos) Reeditado em 1978 com o título de Babilônia! Babilônia!
Pilatos, 1974.
Cony pára de escrever por 23 anos.Volta com Quase-memória, em 1995. Além de editar o livro, a Companhia das Letras comprou o acervo, que pertencia à Civilização Brasileira, e já relançou quase todos os livros, faltando ainda Balé Branco,
Tijolo de segurança, A verdade de cada dia
.

Depois de Quase memória, Cony escreveu:
O piano e a orquestra. São Paulo, Companhia das Letras, 1996.
A casa do poeta trágico, 1967.
Romance sem palavras, 1999.
A tarde da sua ausência, 2003.

Por outras editoras:
O burguês e o crime e outros contos (seleção de contos publicados em Babilônia! Babilônia!). Rio de Janeiro, Ediouro, 1997.
O indigitado. Rio de Janeiro, Objetiva, 2001.

Crônicas:
Da arte de falar mal. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira,1963.
O ato e o fato. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira,1964.
Posto Seis. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira,1965.
Os anos mais antigos do passado. Rio de Janeiro, Record, 1998.
O harém das bananeiras. Rio de Janeiro, Objetiva, 1999.
As vozes do golpe. São Paulo, Companhia das Letras, 2004.
Meu querido canalha. Rio de Janeiro, Objetiva, 2004.
O tudo e o nada. São Paulo, Publifolha, 2004.

Ensaios biográficos:
Charles Chaplin. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira,1967.
Quem matou Vargas? Rio de Janeiro, Edições Bloch, 1972.
JK – Memorial do exílio. Rio de Janeiro, Edições Bloch, 1982.

Reportagens:
O caso Lou: assim é se lhe parece. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1975.
Nos passos de João de Deus. Rio de Janeiro, Edições Bloch, 1981.
Lagoa. Rio de Janeiro, Relume Dumará, 1996.

Infantis e juvenis:
Quinze anos. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1965.
Uma história de amor. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1978.
Rosa, vegetal de sangue. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1979.
O irmão que tu me deste. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1979.
A gorda e a volta por cima. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1986.
Luciana saudade. Rio de Janeiro, Edições de ouro, 1989.
O máscara de ferro. Rio de Janeiro, Objetiva: 2003.

Em parceria:
O presidente que sabia javanês. São Paulo, Boitempo, 2000. Com Angeli.
As viagens de Marco Polo. Rio de Janeiro, Ediouro, 2001. Com Lenira Alcure.
O mistério das aranhas verdes. São Paulo, Moderna, 2002. Com Anna Lee.
O crime mais que perfeito, Planeta, 2003. Com Anna Lee.
O beijo da morte, Objetiva, 2003. Com Anna Lee.
O mistério das jóias coloniais, Salamandra, 2003. Com Anna Lee.

Adaptações:
29, de livros que vão de Ben-Hur às Mil e uma noites, passando por Crime e castigo e O Ateneu.

Telenovela:
Comédia carioca, 1965, TV Rio.

Roteiros para cinema:
Os primeiros momentos, 1973.
Paranóia, 1976.

1. Como responderia à pergunta levantada por João do Rio em O momento literário: a atividade jornalística prejudica ou ajuda a um aspirante a escritor?
Respondo com uma pergunta: por que a pergunta? Há ficcionistas que exerceram outras profissões tão ou mais envolventes, como Guimarães Rosa na diplomacia e na medicina, Drummond no ministério da Educação. O jornalismo não atrapalha, mas também não beneficia.

2. E no seu caso?
No meu caso prejudicou muito. E prejudica até hoje. Como jornalista, tenho um estilo mais agressivo, devo ter cometido injustiças, tomei partidos. Hoje, as pessoas que gostam dos meus livros me detestam como jornalista, e vice-versa. Quem gosta do meu trabalho no jornal diz que meus livros são alienados. O contrário também acontece. Recebo e-mails de leitores dizendo que, quando olham a minha coluna e vêem o nome fhc, viram a página, porque eu só falo besteira em matéria de política. Outros ficam danados quando escrevo coluna falando sobre a escova de dentes. O jornalismo expõe demais se você é cronista e usa a primeira pessoa, como é o meu caso.

3. Jornalismo é vocação ou ofício? E a literatura?
Jornalismo é ofício. Vocação é ser escritor. Mas não gosto desta palavra porque ela significa que alguém chama você. Como a vocação sacerdotal, que é atender ao chamado de Jesus: vem e segue-me. Na entrada do seminário tinha um azulejo com essa frase.

4. O jornalista é um escritor?
Escritor é alguém que escreve.

5. Você pretendia ser escritor quando ingressou no jornalismo?
O escritor precedeu o jornalista. Ele já estava latente. Tanto que envelheci, mas nunca me senti jornalista. É a mesma sensação (descrita no livro Informação ao crucificado) de quando eu estava no seminário e recebia de casa pacotes e cartas para o filósofo João Falcão (ato falho, confunde seu nome com o do alter ego, protagonista-narrador do livro). Eu, filósofo? Para mim, filósofo era Aristóteles. Mas era norma mandar a correspondência assim para distinguir os alunos dos cursos de humanidades, filosofia e teologia. A questão é que até hoje me espanto quando dizem que sou jornalista. Não me sinto jornalista.

4. Por que 23 anos longe da literatura?
Desencanto. E também porque fui fazer outras coisas. Trabalhei com Juscelino em suas memórias, tive uma passagem rápida pela televisão, na teledramaturgia. Fiz a sinopse de novelas como Marquesa de Santos, Dona Beja e Kananga do Japão.

5. Como concilia as duas atividades?
Paradoxalmente, quando eu deixei a literatura, descobri que não tinha tempo para mais nada. E, quando voltei, estava atolado de trabalho no jornal. A culpa foi do computador. Eu comecei a usar para fazer a crônica e achei que tinha ficado tão fácil escrever que comecei a escrever ficção. Quanto mais trabalho eu tenho, mas tempo tenho para fazer as coisas. Se limpar a minha agenda, eu não tenho tempo para fazer mais nada. Talvez seja uma herança do seminário. Tinha horário para tudo, não tinha um minuto livre. Quando eu saí do seminário, eu não sabia mais o que fazer com o tempo. Sem essa disciplina, fiquei perdido. Mas misturo tudo. Ficção e jornalismo, faço tudo ao mesmo tempo. Já cheguei a um ponto de escrever dois livros ao mesmo tempo. Quando cansava de um, passava para o outro. E terminei em quinze dias, praticamente. Mas para isso é preciso trabalhar muito, sábado e domingo, de madrugada. Em geral, escrevo as crônicas no fim de semana. Mas, como são frias, sou obrigado a escrever algumas no calor da hora, vou atualizando. Tem a abl, também, que dá muito trabalho.

Quando escrevo um romance, sofro uma espécie de compulsão. Praticamente só paro para dormir e para comer. Não tenho hora, não sei se é dia ou madrugada. A partir do momento em que começo, só sossego quando ponho o ponto final. Depois faço a sintonia fina, vejo se tem erro de continuidade. Mas cada livro tem seu tamanho. Já a crônica jornalística, não. Penso no tamanho certo, se são 5 mil caracteres, não ultrapasso.

6. Conviveu com outros jornalistas?
Callado, Ruy Castro, Drummond, que era ainda meu vizinho no Posto 6.

7. O jornalismo influenciou a sua literatura, seja em forma de linguagem, temática ou estrutura?
Não, pelo contrário. Repito muito as palavras, uso termos condenados pelo jornalismo, como entrementes, antanho. Se eu usar isso no jornal, eles me demitem. Em O piano e a orquestra, por exemplo, toda vez que coloco o nome de Teresa, repito um trecho que é quase um apelido. O jornal não me paga para ficar repetindo a mesma coisa. Mas, na literatura, faço o que quiser. No caso, a história me impressionou tanto que toda vez que lembro dela vem tudo isso à mente.

8. Qual a diferença da sua geração para a do seu pai, jornalisticamente falando, já que na literatura é óbvia?

Fui o bagrinho do velho. Depois da isquemia, ele voltou a freqüentar o jornal, mas era mais para namorar a moça que depois seria minha madrasta. Eu ganhava salário pela rádio e ele pelo jornal. Mas eu dava dois expedientes.

A geração do meu pai tinha um apelo de boemia. Não eram necessariamente bêbados, isso foi na minha fase, vários de nós lutaram com o alcoolismo, Ubaldo, Ruy, Mário Prata, Fernando Morais. Na época do meu pai, não. Era uma boemia romântica. O cara gostava de ficar na rua até tarde, freqüentava cabarés e cafés. O jornal não tinha hora pra sair, o expediente ia até de madrugada. Sabe A conquista, de Coelho Neto? A geração do meu pai viveu um resquício dessa boemia.

Essa geração foi aposentada pela máquina de escrever. Meu pai chegava a digitar, mas não conseguia pensar com os dedos na máquina. E o Getúlio, por volta de 1942/43, muito pressionado pelo sindicato dos gráficos, fez uma lei dizendo que os gráficos não eram mais obrigados a trabalhar com textos escritos à mão. Na época, noventa por cento dos repórteres escreviam à mão, em tiras. Mas a luz batia, o grafite do lápis brilhava e o gráfico forçava a vista. Então foi proibido. Só gente do porte de Chateaubriand e Mário Rodrigues pôde continuar a escrever à mão. Os repórteres e redatores tiveram que se mecanizar.

Isso fez com que viesse uma outra geração. O que coincidiu com a importação das técnicas americanas pelo Diário Carioca, depois pelo Correio da Manhã, Jornal do Brasil e O Estado de S. Paulo. Começou junto o reinado do copidesque e o da máquina de escrever.

Só meu primeiro romance foi escrito à mão. Mas também não sabia que ia escrever um romance. Nas horas vagas — naquele tempo eu tinha — escrevi e reescrevi. Onze vezes ao todo.

9. O computador afetou sua forma de escrever?
Não sei. Eu sempre escrevi depressa. Mas meus originais eram os mais sujos da imprensa brasileira. Para corrigir, eu usava caneta vermelha. Havia um paginador da Manchete que costumava dizer que parecia um mercúrio cromo, de tão borrocado. Eu escrevia em espaço cinco porque, quando estava na metade da lauda, não ia mexer no que já tinha feito. Ia em frente. Hoje, não, simplesmente apago e mudo de lugar. O computador rende muito mais. O meu caco, por exemplo, sai depois, quando estou fazendo a leitura. É o que dá o molho. Isso acontece indiferentemente, no romance e na crônica. No computador é mais fácil de acrescentar.

10. Qual a diferença da sua geração de escritores jornalistas para a atual?
Foi uma modificação gênero, mas não de grau. O jornalismo hoje é muito diferente do que foi no meu tempo. O leitor ficou sendo muito importante. Antigamente, o jornalista não dava bola para o leitor, mas para o seu nome, sua carreira. O jornalismo ganhou muitas qualidades, ficou mais completo, mas ganhou alguns vícios. Dá um volume enorme de informações e serviços. Antes, o jornalista procurava o cerne da notícia, os desdobramentos não eram disciplinados. Havia mais criação. Hoje, há mais técnica. Ele tem que pensar que o leitor quer saber tudo e não no que quer dizer. Esse negócio de infográfico, que toma metade do espaço, não havia não. E é um modelo que já está indo parar nas editoras. Se eu coloco que o personagem vai passear nas Paineras, recebo um recado do editor dizendo “nós sabemos o que é Paineras, mas o leitor não. Favor dar mais informação”. Isso é jornalístico e está invadindo a literatura. Mas, na minha opinião, romance que tem notas de pé de página, não é romance.

Antes, quando um jornalista escrevia um livro, era praticamente expulso da redação e ia para um nicho, virava uma espécie de cartola. No Correio da Manhã, havia o chamado Petit Trianon. Quando entrava no jornal, era obrigado a disputar ombro a ombro com os outros jornalistas. Mas, quando se consagrava como escritor, ganhava outro status.

Hoje, isso já não acontece. O escritor tem uma outra embocadura, é opiniático. Ele é pago para dar sua opinião, que, por algum motivo, tem valor de mercado. Mas, se é repórter, tem que se submeter às regras. O jornalismo de hoje não é mais aquele balaio, aquele mix, que era antigamente. É mais técnico e profissionalizado.

11. O escritor dos anos 1960 já conseguia viver de literatura? Em Pesach, você tem um personagem que já vivia assim. No seu caso era ficção? E hoje?
Eu mesmo vivia de literatura naquele tempo. Mas depende do que você considera literatura. Se imaginar como um bonde, em que entra tudo o que for relacionado com as letras, então é possível, sim. Nunca ganhei um tostão que não fosse assim, a não ser com o jogo do bicho. Mas eu faço livros, adaptações, artigos, entrevistas, conferências, prefácios. Mas não dá para viver exclusivamente dos romances, como Jorge Amado. Do meu jeito dá para viver, não posso me queixar, mas trabalha-se para burro.


 

 

Pena de Aluguel :: Cristiane Costa
Página desenvolvida por Elizabeth Sucupira :: 2005