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antônio torres
Data de nascimento:
13 de setembro de 1940, num lugarejo chamado Junco, hoje a cidade de
Sátiro Dias, Bahia.
Formação educacional/profissional:
Curso primário na Escola Rural Prof. Anísio Teixeira, de Sátiro
Dias. Fez o ginásio na cidade de Alagoinhas e ingressou no Colégio
Severino Vieira, em Salvador, não chegando, porém, a concluir o segundo
grau. Antes de ingressar no jornalismo teve várias ocupações, tanto no
campo, no trabalho agrário e pastoril, quanto na cidade, onde trabalhou
em sorveteria, bar e como vendedor pracista. Também foi bancário por
algum tempo, em Salvador e São Paulo.
Livros publicados:
Um cão uivando para a Lua.
Rio de Janeiro, Edições Gernasa, 1972; Rio de Janeiro,
Record, 2002.
Os homens dos pés
redondos. Rio de
Janeiro, Francisco Alves, 1973; Rio de Janeiro, Record, 1999.
Essa terra.
São Paulo, Ática, 1976; Rio
de Janeiro, Record, 2001.
Carta ao bispo.
São Paulo, Ática,
1979.
Adeus, velho.
São Paulo, Ática, 1981.
Balada da infância
perdida. Rio de
Janeiro, Nova Fronteira, 1986; Rio de Janeiro, Record, 1999.
Um táxi para Viena
d´Áustria. São
Paulo, Companhia das Letras, 1991; Rio de Janeiro, Record, 2002.
O centro das nossas
desatenções. Rio de
Janeiro, rioarte/Relume-Dumará,
1996. Coleção Cantos do Rio.
O Cachorro e o lobo.
Rio de Janeiro,
Record, 1997.
O circo no Brasil.
Rio de Janeiro/São
Paulo, funarte/Atração Cultural, 1998.
Meninos, eu conto.
Rio de Janeiro, Record, 1999.
Meu querido canibal.
Rio de Janeiro,
Record, 2000.
O nobre seqüestrador.
Rio de Janeiro,
Record, 2003.
Atividade jornalística:
O
primeiro trabalho foi para o Alagoinhas Jornal, da cidade de
mesmo nome, no interior da Bahia. Um artigo de protesto contra o aumento
das mensalidades do ginásio local, em que eu estudava. Só não contava
com a dimensão da bronca que isso iria gerar. O articulista estreante
foi chamado ao gabinete do dono do ginásio, um homem discreto, de gestos
sóbrios e fala mansa, mas que não conseguia esconder o seu desagrado por
trás de sua boa educação. Parecia a ponto de perder o auto-controle,
diante do rapazola que na sua presença, naquele instante, se sentia
diante de um juiz, num tribunal. “O senhor chamou o meu ginásio de a
casa grande do doutor Carlos Cunha. A expressão é rapace, sabe o que é
isto?” Antes mesmo que eu respondesse sim ou não, ele continuou: “Há aí,
na sua frase, uma certa má intenção, ardilosa: o senhor não quis dizer
que o ginásio fica numa casa grande, mas que eu sou um senhor de engenho
do ensino, um escravizador”. Resumo da ópera: era caso para expulsão. O
que só aconteceu graças à boa lembrança do doutor Carlos Cunha de puxar
um arquivo e retirar dele o meu boletim. As minhas notas me salvaram: a
expulsão ganhou um abatimento, apenas três dias de suspensão. Apenas
isto. Menos mal.
Aquele artigo, porém,
viria a despertar a atenção de um homem chamado Mário Alves, que
pertencia ao Partido Comunista e vivia distribuindo em Alagoinhas o
jornal Novos Rumos, órgão do
pc editado no Rio. Ele
achou que eu tinha queda para o jornalismo (em tempo: nunca chegou a me
aliciar para o partido) e se prontificou a me levar a Salvador, para me
apresentar ao doutor João da Costa Falcão, o dono do Jornal da Bahia
(e de uma empresa imobiliária, de um banco, o Banco Bahiano da Produção
etc). E assim fez, logo que terminei o ginásio.
Para meu espanto, o
poderoso empresário era mesmo amigo desse senhor Mário Alves, um modesto
proprietário de uma borracharia numa cidade do interior. E atendeu ao
pedido do borracheiro na hora: vestiu o seu paletó branco, deixou o seu
escritório imobiliário, atravessou uma rua, me conduzindo ao prédio do
seu jornal, onde me apresentou ao editor-chefe, um escritor baiano já
famoso, chamado Ariovaldo Matos, que me passou para o chefe da
reportagem, o também escritor João Carlos Teixeira Gomes, que me mandou
cobrir o movimento do porto, de onde me empurraria para o necrotério
Nina Rodrigues e depois de delegacia em delegacia de polícia, porque
foca tinha mais era que ralar, até aprender os macetes do ofício. Um
belo dia o chefe Joca me deu uma tarefa mais perfumada: cobrir uma
conferência de um tal de Jean-Paul Sartre, na Universidade da Bahia. Eu
ainda não tinha lido nada dele, nem mesmo o Furacão sobre Cuba,
que estourava na praça. De nada sabia sobre o homem e o seu
existencialismo. Mas fui salvo por um assessor de imprensa da
universidade, que, com uma paciência de avô, me deu munição suficiente
para não levar um esporro na volta à redação. (Ah, meninos: naquele
tempo ser foca era viver tremendo diante dos berros das chefias. Era
como ter a cabeça na bigorna, levando martelada o tempo todo). E assim
eu ia, engolindo bronca. Mas aí o doutor João Falcão resolveu convidar a
redação para a festa do seu aniversário. E todo mundo se aboletou na
biblioteca do grande homem, numa tertúlia interminável em busca do tempo
perdido. As confabulações em torno da obra de Marcel Proust me deixavam
com o sentimento de estar mesmo por fora. Daquela turma, da Bahia, quem
sabe do mundo. Naquela noite tomei a primeira grande decisão da minha
vida: decidi que ia embora. Para São Paulo. A cidade dos operários em
construção, provavelmente todos vindos da roça, como eu. E, em lá
chegando, caí na seção de esportes do jornal Última Hora. E como
naquele tempo (1961-1962) o Brasil era campeão de quase tudo, ser
repórter esportivo era um presentaço do destino. Adeus, cais do porto,
necrotérios, delegacias de polícia, Marcel Proust! Viva Pelé! E o Santos
Futebol Clube, o Botafogo de Garrincha, Didi e Nilton Santos, o
Palmeiras de Djalma Santos, Maria Ester Bueno, Eder Jofre, o Maneco da
Natação, Ademar Ferreira da Silva, era correr atrás deles e voltar cheio
de matéria. Não demorou muito e cheguei a chefe da reportagem de
esportes da Última Hora, o jornal azul do vale do Anhangabaú. Aos
23 anos, troquei o jornalismo pela publicidade, em São Paulo, Portugal e
Rio de Janeiro. Mas esta já é outra história.
1. Em 1904, João do Rio publicou O momento literário, uma
enquete em que perguntava aos intelectuais brasileiros, entre outras
coisas, se a atividade jornalística era prejudicial ou não a um
aspirante a escritor. Qual seria sua resposta à pergunta?
Quando publiquei o meu primeiro livro, o jornalista José Roberto Guzzo,
meu ex-colega na redação da Última Hora, me disse: “Agora tente
encontrar uma ocupação na qual você fique longe de uma máquina de
escrever, para não se desgastar”. Naquele instante me lembrei do Oswaldo
França Júnior, um sujeito admirável e um escritor que estava com toda a
corda. Depois de ter sido expulso da Aeronáutica, no golpe de 64, ele
passou a viver de carrocinhas de pipoca ou frota de táxis, enquanto
lançava um livro atrás do outro. Era um escritor de mão cheia que
ganhava a vida longe de uma máquina de escrever. Outro clássico exemplo
disso era o lendário William Faulkner, que, numa entrevista famosa,
havia dito que a melhor ocupação para um escritor era ser gerente de
bordel (e dizia isso por experiência própria): “Pela manhã, enquanto as
moças dormem, fica tudo em silêncio. E aí dá para escrever
tranqüilamente”. Mesmo com esses exemplos em mente, não consegui seguir
o conselho do Guzzo. Já estava enredado na máquina da redação
publicitária, da qual só consegui sair em 1998, espirrado dela pelas
reengenharias globalizadoras. Hoje, me pergunto como consegui escrever
os livros que escrevi, no meu tempo de publicitário. Era assim: chegar
na agência às nove horas da manhã e voltar para casa à noite, na hora
que desse. Ia à forra nas férias, nos carnavais e semanas santas. O que
acabava sendo um sacrifício para a vida familiar.
No entanto, acredite: a
publicidade me estimulava a escrever. Penso até que se tivesse
continuado no jornalismo, a minha produção não terei sido a mesma.
Porque na imprensa, de alguma maneira, você tem um espaço autoral que
não tem na publicidade, onde você faz parte de uma engrenagem anônima e
efêmera, muito mais efêmera do que no jornalismo. Nesse sentido, o
jornalismo contempla mais a sua necessidade de escrever. Parei de
publicar uma coluna que tinha no caderno Idéias, do Jornal do
Brasil (entre os anos de 1991 a 93), quando percebi que aquilo
estava me tirando essa necessidade. Somos todos vulneráveis à resposta
do público e, quando assinamos os nossos textos na imprensa, essa
resposta é imediata. Queiramos ou não, isso dá uma inflada danada no
ego. Daí toda a minha admiração por quem não se deixa abalar por esse
tipo de vaidade, esses sujeitos dotados de uma estrutura psicológica
fabulosa, como o Carlos Heitor Cony e o Luís Fernando Verissimo.
E aqui já chegamos a
outro ponto: conheci escritores que foram jornalistas a vida inteira e
mesmo assim deixaram as suas marcas na história da literatura
brasileira. Estou pensando no querido Antônio Callado. E nos que
continuam na ativa, como os meus amigos Ignácio de Loyola Brandão — um
ex-colega da Última Hora, hoje editor da revista Vogue — e
Ivan Angelo. João Ubaldo Ribeiro continua vinculado ao jornalismo, e com
a produção literária que todos conhecem. Há aí uma turma mais nova, que
consegue ser jornalista e escritor de tempo integral, e não sei como: só
eles podem responder. Falo de Bernardo Ajzenberg, Luiz Ruffato, Carlos
Herculano Lopes, José Castello, Raimundo Carrero, Arnaldo Bloch, Paulo
Roberto Pires e do baiano Carlos Ribeiro.
2. Na sua opinião, o jornalista é um escritor? O jornalismo é vocação
ou ofício? E a literatura?
Bom, o jornalista pode ser um escritor em potencial. Nem todo
jornalista, porém, tem talento literário. Assim como nem todos querem ou
pretendam ser escritores, claro. Para que, se isso dá um trabalho danado
e compensa tão pouco, financeiramente? Vocação? Talvez. Ofício? Melhor
dizer: uma profissão, como qualquer outra. Já a literatura, na minha
maneira de ver, é uma necessidade interna do indivíduo, necessidade de
expressão, de comunicação, de dizer, dizendo-se. Quando vira ofício,
corre o risco de perder a sua graça original. Aí você cai no tal do
mercado e vira mercadoria, livros e idéias pautadas pelo mesmo mercado,
qualquer nota.
3. Pretendia ser escritor quando ingressou no jornalismo?
Sim, ser escritor foi o meu sonho de criança, desde que bati o olho
na Seleta Escolar que a professora Teresa levou para a Escola
Rural da minha infância. Era uma espécie de antologia de contos,
crônicas e poemas. Ao descobri-la, foi como se tivesse descoberto o
mundo. Entrei no jornalismo como quem entra num campo de treinamento. O
que queria mesmo era aprender a escrever. Depois percebi que esse é o
aprendizado que nunca tem fim.
4. Conviveu com outros escritores jornalistas?
Convivi e ainda convivo com outros escritores jornalistas. Antônio
Callado era um lorde que nunca se queixava de nada. Vivia preocupado com
questões política e culturalmente mais relevantes. O José Louzeiro fez
do Sindicato dos Escritores uma trincheira frente à censura, no tempo
dos militares, e, na esteira da gestão de Antônio Houaiss, fez da
entidade um fórum de debates em defesa da classe, com prejuízos pessoais
enormes, creio. O finado João Antônio achava o jornalismo o túmulo dos
escritores. Era um bocado azedo a esse respeito. O pessoal de agora faz
o que pode e não reclama. A ditadura agora é a da sobrevivência, me
parece.
Quais os prós e contras do jornalismo?
7. Linguagem.
No jornalismo, busca a comunicabilidade. O que também é essencial em
literatura, essa esponja na qual grudam todas as linguagens. Não creio
em bloqueios: estes podem estar dentro dos indivíduos e não nos seus
meios de expressão. O jornalismo, em termos de linguagem, é um estágio
pré-literário, que, se bem filtrado e processado, pode resultar em
outro, chamado literariedade. Não esquecer os componentes talento e
suor, ou inspiração e transpiração.
8. Profissionalização.
Há hoje um certo quadro profissionalizante, sobretudo para
escritores que têm coluna fixa em jornal, ou seja, os mais expostos à
visibilidade. Mas a coisa gira em torno de poucos nomes, em geral os
mesmos nomes, o que acaba ficando repetitivo. Entramos definitivamente
na economia de escala, e isso tende a converter as letras em números.
Digamos que é uma tendência do nosso tempo de vacas magras ou loucas.
Felizmente, nem todo mundo quer o que todo mundo quer. Se tivesse de
dizer alguma coisa para um iniciante, seria o seguinte: escreva como um
profissional, sem perder o seu coração de amador. Os livros das listas
de best-sellers passam, mas literatura é a que fica.
9. Visibilidade.
Se você é jornalista e quer ser escritor, mãos à obra. Se você vai
ter visibilidade ou não, se vai ter um ingresso para o clube dos
letrados ou não, isso vai depender de fatores dos quais você não terá o
menor controle. O que pode compensar os fatores negativos da sua
profissão é o seu nível de prazer com a sua criação literária.
10. Liberdade de pensamento.
O que me levou à literatura foram as leituras da minha infância e
depois. Mas é verdade: na literatura, o céu é o limite. O problema são
os limites que nós mesmos nos impomos. Ou a falta de talento para
superá-los.
11. O que faria o livro superior ao jornal?
Bom, leio pelo menos dois jornais diariamente. Não conseguiria viver
sem isso. Faz parte da civilização. Assim como não posso viver sem um
livro bem à mão. São necessidades reais de leitura — e diferentes. Só
isso.
12. Faça sua própria lista de prós e contras:
O jornalismo me ensinou a ver o mundo. A publicidade, a contar o que
vi, sinteticamente.
13. Por que optou pela publicidade?
Troquei o jornalismo pela publicidade graças a um diretor de redação
que não queria me deixar sair de férias. Saí assim mesmo e fui me tostar
ao sol da Bahia. Na volta, a punição: fui tirado da primeira edição do
jornal, que fechava de madrugada, e jogado na segunda edição, que
fechava ao meio-dia. Isso significava não só uma mudança brusca de
horário (tinha que chegar lá às sete da manhã, e não mais às duas da
tarde), como também uma perda de prestígio: a primeira edição, que ia
para todo o estado de São Paulo, era mais importante do que a segunda,
que era distribuída só na capital. E, pela manhã, a redação era um
deserto, ao contrário da tarde e da noite, quando tudo fervia. Numa
dessas manhãs, depois de ter fechado a página de esportes, fiquei
sentado num mesão, no meio daquela redação vazia, nada feliz. De repente
entra uma moça e pergunta se eu não gostaria de trabalhar em
publicidade. Fala de uma agência que estava precisando de um redator e
tal. Fui lá. Conversa vai, conversa vem, lêem algumas matérias que eu
havia assinado, dizem que meus títulos “tinham bossa”, coisa e tal,
acabei sendo contratado. Primeiro trabalho: uma campanha para venda de
assinaturas do Estadão. Moleza. Acabou premiada — num Salão de
Arte Publicitária... da Folha d S.Paulo! E aí fiquei. E fui
pulando de agência em agência, até não haver mais para onde pular. Me
agarrei à literatura. Como o náufrago que se agarra ao galho mais à mão.
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